Anzitena (; ; ), segundo a Geografia de Ananias de Siracena (), foi um distrito (gavar) de Sofena, no Reino da Armênia, de grande importância durante a Antiguidade e Idade Média. Em decorrência de sua posição privilegiada, foi anexada pelo imperador Diocleciano em 298 como forma de assegurar a defesa de Melitene e da principal rota militar local. Durante o reinado de Valente , os nobres locais desertadas o rei armênio em prol de . Durante o reinado do imperador , a fronteira bizantina na Armênia foi estendida para o vale do Arsânias, com Anzitena passando a fazer parte da província da .

Pelo , com a expansão islâmica pelo Oriente Médio, Anzitena e suas regiões vizinhas tornar-se-iam uma importante base para ataques à Anatólia. No , o imperador Teófilo foi capaz de atacar as principais cidades de Anzitena e pelo , o general João Curcuas reconquistou Melitene, Arsamósata e Teodosiópolis. Apesar disso, pela mesma época, o emir hamedânida de Alepo Ceife Adaulá lançou uma série de expedições nos domínios recém conquistados, ameaçando a posição bizantina. Em 1058, os turcos seljúcidas invadiram a região e saquearam Melitene. No período entre 1071-1081, em decorrência do desastre bizantino na Batalha de Manzicerta, os seljúcidas expandiram-se por todo o planalto armênio e a Anatólia Oriental para leste rumo a Bitínia.

Durante a Primeira Cruzada, a região foi dominada por , porém o controle cruzado perdurou poucos anos, pois em 1100, após a Batalha de Melitene, ela passaria para os danismêndidas. No final do , Melitene voltou a pertencer os domínios seljúcidas, porem poucas décadas depois seria conquistada pelo Império Mongol e então pelo Ilcanato. Depois foi sucessivamente dominada pelos vários poderes que expandiram-se pela região nos dois séculos seguintes até ser tomada em definitivo pelo Império Otomano em 1516.

Geografia

thumb|Fronteira bizantino-persa no

Anzitena localizava-se na extremidade sudoeste da Armênia e era limitada pelo Eufrates a oeste, pelo curso inferior do rio Arsânias (atual Murate) a norte e pelos Montes Tauro a leste e sudeste. Seu núcleo geográfico era a região das planícies que se estende desde a moderna Elaze até a antiga cidade de Arsamósata. Agora chamada de Altenova, ou "planície dourada", esta é uma área fértil e bem irrigada cercada por montanhas. De acordo com uma tradição local registrada no , era o local do antigo Jardim do Éden. Anzitena também incluía áreas na margem leste do Eufrates, em torno de Muxar e Tomisa (Comur Hã), no que faz parte geograficamente da planície de Melitene (atual Malátia).

Anzitena controlava o sul das duas principais rotas leste-oeste através da Armênia. A primeira ia de Melitene no oeste, cruzava o Eufrates em Tomisa e então seguia o vale de Arsânias até suas nascentes no país de lava ao norte do lago de Vã. Também comandava o passo de Ergani - uma das duas principais rotas sobre o Tauro Armênio, ligando o planalto armênio com o rico vale do alto Tigre. Também controlava várias rotas menos importantes. Uma ia para o noroeste em direção ao norte da Anatólia, cruzando o Arsânias no vau de e então o Eufrates perto de .  Outra ia para o norte até o vale do alto Eufrates, cruzando o Arsânias no vau de Perteque e então cruzando o alta e nua cordilheira de Muzurom.

História

Antiguidade

thumb|esquerda|upright=1.2|Armênia em 150, com Sofena situada no extremo sudoeste

O nome Anzitena corresponde ao Enzi dos textos neoassírios. Um documento datado de 252 sobre a venda de uma escrava chamada Cardaneia Diana a identifica como tendo nascido no distrito de Ortena, que com base em fontes siríacas posteriores parece estar localizado em Anzitena. O povo de Ortena aparentemente não falava nem armênio nem aramaico, mas sim sua própria língua. (O nome "Ortena" foi conectado por Josef Markwart ao antigo Reino de Urartu, mas isso é altamente especulativo.) No entanto, o fato de Cardaneia também ter adotado o nome Diana, além de seu nome nativo, indica que a região estava sob considerável influência cultural greco-romana na época.

Em decorrência de sua posição privilegiada, Anzitena permaneceu como uma zona constantemente cobiçada pelos grandes poderes em conflito na região. Originalmente era um distrito (gavar) da província de Sofena, no Reino da Armênia, com área total de quilômetros quadrados. Anzitena, e a vizinha Ingilena, eram governadas pela mesma família principesca, cujas origens remontavam os orôntidas. Moisés de Corene, ao tratar sobre essa família, alegou que descendiam de certo Torque, que foi investido com seu principado pelo mítico . Esse príncipe deteve a posição de azarapates (grão-senescal) por algumas gerações, antes do ofício ser transferido aos Genúnios. É possível, por sua vez, que o príncipe local foi investido com o ofício de vitaxa (vice-rei) da Marca Síria (Sofena), haja vista sua proeminência regional. A Lista Militar (, Zōrnamak), o documento que indica a quantidade de cavaleiros que cada uma das famílias nobres devia ceder ao exército real em caso de convocação, afirma que os príncipes de Ingilena deviam arregimentar quatro mil cavaleiros.

thumb|Áureo de Diocleciano thumb|Dinar de ouro de

A medida que o Império Romano expandiu-se para leste, Anzitena atuou como um de seus limites orientais. Em 298, tornar-se-ia vassala do imperador Diocleciano como parte dos termos da Paz de Nísibis. Como consequência, passou a atuar como um escudo para Melitene, a principal rota militar da região aos que atravessavam o passo de Ergani, e seus príncipes deixaram de ser investidos como vitaxas, pois não poderiam cumprir com as obrigações do ofício enquanto vassalos do imperador. Nas várias décadas que se seguiram, a Armênia continuou como zona de litígio entre os romanos e os iranianos do Império Sassânida, mas em 363, uma nova Paz de Nísibis foi firmada e os romanos abandonaram temporariamente suas pretensões. Apesar disso, Anzitena manteve sua lealdade aos romanos.

Em 368, durante o reinado de Valente , o xainxá valeu-se de suborno para convencer os nacarares (senhores hereditários) armênios a desertarem , o rei armênio pró-romano, numa tentativa de enfraquecer os partidários lealistas e ocupar todo o país. Segundo as fontes armênias, o príncipe Salamute de Anzitena supostamente abandonou Ársaces em preferência ao imperador, mas na realidade seu país já estava sob influência romana há mais de 50 anos. Seja como for, Sapor II, ao adquirir o apoio desejado, encarcerou Ársaces II e sitiou seu sucessor Papa e sua esposa Farranzém na fortaleza de Artogerassa. Papa conseguiu escapar à corte de Valente em Constantinopla e em 370, sob proteção de um grande exército, foi recolocado no trono. No reinado de Papa, o general realizou expedições punitivas contra os territórios desertores, visando reconquistá-los. Amzitena foi um dos territórios atacados.

Idade Média

thumb|esquerda|Soldo de

No , Anzitena formou uma sé episcopal própria, mas manteve sua ligação dinástica com Ingilena. Em 451, o bispo local compareceu ao Concílio da Calcedônia. Durante o reinado do imperador os domínios imperiais foram estendidos para o vale do Arsânias, assegurando uma nova rota militar bem a leste de Anzitena. Administrativamente, desde 536, como parte das inúmeras reformas promulgadas por Justiniano, a dinastia de Anzitena foi extinta e a região foi incorporada na província da . No , mais precisamente desde a conquista do sudoeste da Armênia com a tomada de Melitene em 638, o território da cidade e o vale inferior do Arsânias, incluindo Anzitena, tornar-se-iam uma região fortemente militarizada, servindo como base para operações militares em direção a Anatólia no transcurso da expansão islâmica, bem como para o controle dos planaltos armênios. Sabe-se que sua população declinou entre os séculos VI e X. Dadima (atual ), a antiga capital romana, encolheu e recuou para um local mais defensável. Carpute (nas cercanias da atual Elaze) também parece ter feito o mesmo. A única exceção a essa tendência foi Huri, que parece ter crescido de uma vila para uma cidade. Parte da razão para esse declínio pode ter sido por causa de um movimento da população ao norte em direção a Sofena. O que provavelmente aconteceu é que durante as invasões árabes, muitas pessoas deixaram os "assentamentos abertos e expostos" na planície de Anzitena para lugares mais bem protegidos em Sofena. Como um "país de calcário fissurado" protegido ao sul pelo Arsânias, Sofena estava melhor posicionada para proteger os moradores de ataques e invasões.

Uma mudança populacional local também ocorreu, pois as pessoas que permaneceram no distrito deixaram os assentamentos abertos e expostos nas planícies para locais mais elevados que ofereciam proteção. No entanto, não há evidências de que uma migração interna tenha ocorrido das planícies às terras altas do oeste. Em contraste com Sofena, cujos vales eram pequenos, mas tinham solo rico à agricultura, as terras altas ocidentais de Anzitena são pouco adequadas para sustentar grandes cidades. Enquanto isso, a ameaça dos bizantinos a oeste levou os árabes a investir na fortificação das terras altas do norte e oeste de Anzitena, como em Alminçar (al-Minşār), Atel (al-Tell) e Asvane. Eles não se preocuparam em fazer nenhuma base nas planícies abertas, exceto pela cidade principal de Arsamósata, no extremo leste da planície, e não parecem ter usado muito a passagem de Ergani durante o período. No entanto, um relato da campanha de na região em 873 refere-se a assentamentos fortificados, incluindo Cacom (Axae Hu) e Murinix (o forte em , perto da vila de Murenique), entre outros. Ambos os locais estão na descida da passagem de Ergani, indicando que ainda era visto como um objetivo militar estratégico, mesmo que menos do que outros períodos. Em geral, os árabes usaram Anzitena para um propósito estratégico diferente do que abastecer Melitene - eles o usaram para manter comunicações com regiões mais a leste.

thumb|esquerda|Captura de Melitene em 934 segundo o Escilitzes de Madrid thumb|esquerda|Temas do Império Bizantino em 950

No , após dois séculos de revezes militares perante as hordas árabes, os bizantinos sob os imperadores Teófilo e tomaram a dianteira da ofensiva e conseguiram reaver alguns de seus antigos domínios na região da Armênia e regiões vizinhas. Tarso, na Cilícia, foi reconquistada em 831, um feito que seria seguido pela reconquista temporária de Melitene e Arsamósata (também em Anzitena) em 837, a destruição de Sozópetra, na Capadócia, no mesmo ano e a derrota das forças do emir Ambros na Batalha de Lalacão em 863. No , os bizantinos intensificaram suas expedições contra os árabes, conseguindo mais sucessos no campo de batalha. Sob o comando do general João Curcuas, Melitene foi definitivamente capturada em 934, com sua população árabe sendo substituída por colonos gregos e armênios. Após a consolidação da posição bizantina, Anzitena foi brevemente dividida. Anos depois, o exército imperial continuou sua investida, resultando na anexação de porção oriental de Anzitena em 937, na estrangulação e captura de Arsamósata entre 937-939, a tomada dos planaltos de Corzana entre 937-942, a abertura do principal passo oriental ao exército entre 942-944 e a conquista de Teodosiópolis e Calícala em 949. Os bizantinos provavelmente expandiram as fortificações em Carpute nessa época e ela se tornou o principal centro em Anzitena.