Wolfgang Amadeus Mozart (AFI: ), batizado Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, (Salzburgo, – Viena, ) foi um compositor, músico, professor de música e maestro austríaco do período clássico.

Mozart mostrou uma habilidade musical prodigiosa desde sua infância, e desde logo foi fortemente incentivado pelo pai, Leopold Mozart, um excelente violinista, que lhe ministrou um sólido e amplo treinamento musical, organizou e promoveu sua carreira e imprimiu uma forte marca em seu pensamento e suas escolhas, mas à medida que o filho crescia, o relacionamento entre ele e o pai se tornou cada vez mais tenso e problemático, devido à personalidade controladora de Leopold. Começou a compor aos cinco anos de idade, quando já era competente nos instrumentos de teclado e no violino, passando a se apresentar para a realeza europeia, maravilhando a todos com seu talento precoce. Chegando à adolescência, foi contratado como músico da corte de Salzburgo, porém as limitações da vida musical na cidade o impeliram a buscar emprego em outras cortes, sem sucesso. Ao visitar Viena em 1781 com seu patrão, desentendeu-se com ele e solicitou demissão, optando por ficar na capital, onde, ao longo do resto de sua vida, conquistou fama, mas pouca estabilidade financeira. Seus últimos anos viram surgir algumas de suas sinfonias, concertos e óperas mais conhecidos, além de seu Requiem. Foi casado com Constanze Weber, tendo com ela seis filhos, mas apenas dois chegaram à idade adulta: Carl Thomas e Franz Xaver Wolfgang.

Foi autor de mais de seiscentas obras, mas a imagem popular de Mozart como um gênio que nasceu pronto é um mito, tendo acumulado desde a juventude um vasto conhecimento da música de seu tempo e dos períodos anteriores, à qual suas próprias obras devem muito. Sua produção foi louvada por todos os críticos de sua época, embora muitos a considerassem excessivamente complexa e difícil, e estendeu sua influência sobre vários outros compositores ao longo de todo o século XIX e início do século XX. Apesar do seu renome, não criou uma verdadeira escola, mas sua posteridade aproveitou e desenvolveu aspectos técnicos da sua produção, incluindo a perspectiva de expansão das formas musicais consagradas e seu modo de organizar elementos díspares em um todo unificado, de dar consistência e eloquência ao fraseado e de usar temas secundários como elementos estruturantes do discurso sonoro, além de ter dado contribuições seminais para o desenvolvimento da forma da sonata clássica e da escrita sinfônica, concertante, operística, coral, pianística e camerística.

Depois de sua morte, sua popularidade entrou em declínio, mas nunca foi inteiramente abandonado, e vários estudos importantes apareceram ainda no século XIX, incluindo a primeira versão do seu catálogo e a primeira biografia crítica. Sua obra começou a ser consistentemente revalorizada no início do século XX, e desde então o interesse acadêmico e popular não cessou de crescer, tomando grande impulso a partir da década de 1960, já tendo dado origem a uma imensa quantidade de estudos especializados e uma vasta discografia. Hoje, Mozart é visto pela crítica como um dos maiores compositores do ocidente, conseguiu conquistar grande prestígio mesmo entre os leigos, e sua imagem se tornou um ícone da cultura de massa. A excepcionalidade do seu talento infantil, a importância das suas realizações, suas dificuldades como artista independente, suas excentricidades e sua morte prematura o tornaram um personagem ideal para a mitificação romântica, formando-se em seu redor muitas lendas e narrativas sem fundamento, ainda muito divulgadas, que a crítica recente vem tentando dissolver.

Biografia Família e primeiros anos thumb|direita|Registro de batismo de Mozart thumb|direita| Mozart nasceu no apartamento da família no terceiro pavimento deste prédio, na Getreidegasse nº 9

Mozart nasceu em Salzburgo em 27 de janeiro de 1756, sendo batizado no dia seguinte na catedral local. O nome completo que recebeu foi Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, e teve como padrinho Joannes Theophilus Pergmayr. Mais tarde Mozart preferiu ter seu nome Theophilus chamado em suas versões francesa ou germânica, respectivamente Amadé e Gottlieb, mais raramente a forma latina, Amadeus. Os primeiros dois nomes só foram usados em suas primeiras publicações, e adotou a forma germânica Wolfgang em vez da latina Wolfgangus.Rushton, p. 2Sadie (1988), pp. 3-4 Foi o sétimo e último filho de Leopold Mozart e Anna Maria Pertl. De todas as crianças, somente ele e uma irmã, Maria Anna, apelidada Nannerl, sobreviveram à infância. A família do pai era oriunda da região de Augsburgo, tendo o sobrenome registrado desde o século XIV em diversas formas — Mozarth, Motzhart, Mozhard ou Mozer. Muitos de seus membros se dedicaram à cantaria e construção, e alguns foram artistas. A família da mãe era da região de Salzburgo, composta em geral por burgueses da classe média.

Assim que o talento de Mozart foi reconhecido, em seus primeiros anos de vida, o pai, músico experiente e violinista afamado, abandonou suas pretensões pedagógicas e compositivas para dedicar-se à educação do filho e de sua irmã Nannerl, que também cedo manifestou extraordinários dotes musicais, demonstrando porém clara preferência por Wolfgang e considerando-o um milagre divino. Parece certo que boa parte do profissionalismo que Wolfgang veio a exibir em sua maturidade se deveu à rigorosa disciplina imposta pelo seu pai. Seu aprendizado musical começou com a idade de quatro anos. Leopold havia compilado em 1759 um volume de composições elementares para o estudo de sua filha, que também serviu como manual didático para o irmão. Neste volume, Leopold anotou as primeiras composições de Mozart, datadas de 1761, um Andante e um Allegro para teclado, mas é impossível determinar até que ponto são obras integrais de Mozart ou se trazem contribuição paterna.Sadie (1988), pp. 4-5Cavett-Dunsby, pp. 228-229

Primeiras viagens

Logo as crianças estavam aptas para se apresentar publicamente, e no mesmo ano de 1761 Mozart fez sua primeira aparição como menino-prodígio, em uma récita de obras de Johann Eberlin na Universidade de Salzburgo.Sadie (1988), p. 5 Em seguida iniciou-se um período de cerca de vinte anos em que fez extensas viagens pela Europa, organizadas privadamente por Leopold com os objetivos declarados de consagrar seus filhos como gênios precoces e obter ganhos financeiros. Entre os inúmeros concertos que davam, os testes a que eram submetidos, os contatos profissionais e visitas de cortesia que se viam obrigados a fazer, e a frequente audição de apresentações de músicas alheias para a instrução das crianças, paralelamente à continuidade de seus estudos em música e na instrução elementar, o cronograma dessas viagens foi sempre exaustivo, e às vezes cobrou caro da sua saúde.Rushton, pp. 7-8 thumb|direita|Retrato de Mozart, 1763, possivelmente de Pietro Antonio Lorenzoni — Internationale Stiftung Mozarteum.

A primeira viagem, em 1762, foi para Munique, onde tocaram diante do Eleitor da Baviera. No fim do ano iniciaram outra, que durou até janeiro de 1763, indo para Viena e outras cidades, tocando para vários nobres e duas vezes para a imperatriz Maria Teresa e seu consorte. Segundo registros de personalidades que os assistiram, e do próprio Leopold, que era um prolífico epistolário e mantinha diários de viagem, Mozart já tocava "maravilhosamente", sendo uma criança "animada, espirituosa e cheia de charme".Sadie (1988), pp. 5-6 Pouco depois de seu retorno à casa, Mozart adoeceu, aparentemente de febre reumática,Holden (1996a), p. 151 mas logo se recuperou, tanto que em fevereiro de 1763 tocou violino e cravo pela primeira vez na corte de Salzburgo. Uma nota divulgada em um jornal local declara que Mozart já era capaz de tocar como um adulto, improvisar em vários estilos, acompanhar à primeira vista, tocar teclado com um pano cobrindo as teclas, acrescentar um baixo a um tema dado e identificar qualquer nota que fosse tocada. Relatos de amigos registram que com esta tenra idade, ainda que sua jovialidade infantil permanecesse manifesta, seu espírito já se compenetrara na música, e só se dispunha a tocar diante de um público que levava a música a sério, evidenciando orgulhar-se de suas capacidades. Do mesmo ano data sua primeira tentativa registrada de escrever um concerto, e a despeito de sua caligrafia ser um garrancho, sua música foi considerada por Leopold como composta correta e adequadamente.

Ainda em 1763, em junho, iniciaram outra viagem, que durou até 1766 e desta vez os levou à Alemanha, França, Inglaterra, Países Baixos e Suíça, passando por vários centros musicais importantes no caminho. Agora dispunham de uma carruagem própria e foram acompanhados por um criado. Mozart costumava tocar órgão nas igrejas das cidades onde pernoitavam, e a família aproveitava o tempo livre para diversos passeios. Em Ludwigsburgo se encontraram com o violinista Pietro Nardini e o compositor Niccolò Jommelli; chegando em Bruxelas, esperaram cinco semanas antes que o governador os recebesse para uma audição. Chegaram em Paris em 18 de novembro e ali permaneceram por cinco meses, salvo duas semanas em Versalhes, quando se exibiram diante de Luís XV, e com toda a probabilidade fizeram outras apresentações privadas. Deram dois concertos públicos, entraram em contato com músicos locais e com um influente literato e crítico musical, o Barão Grimm. Em Paris Leopold publicou as primeiras obras impressas de Mozart, dois pares de sonatas para cravo e violino. Em abril do ano seguinte partiram para Londres, onde ficaram por quinze meses. Logo após a chegada foram recebidos por Jorge III, que deu ao menino alguns testes difíceis ao cravo, e o ouviu em duas outras ocasiões. Deram concertos públicos e privados e Leopold convidou os especialistas para testarem Mozart de várias maneiras, mas os anúncios sensacionalistas publicados diminuíam a idade de Mozart em um ano, e as apresentações às vezes tiveram um caráter quase circense.Sadie (1988), pp. 7-9Rushton, pp. 8-11

O filósofo Daines Barrington o examinou e apresentou um relatório com suas conclusões à Royal Society, declarando sua proficiência em improvisos e na composição de canções em estilo operístico. Possivelmente em Londres Mozart compôs e apresentou suas primeiras sinfonias, pode ter entrado em contato com a música de Händel, que ainda era popular, e ali conheceu Johann Christian Bach, com quem iniciou longa amizade e de quem recebeu influência musical. Em 1 de agosto de 1765 embarcaram novamente para França, mas ao chegarem em Lille o menino adoeceu, ficando acamado por um mês. A viagem prosseguiu então para os Países Baixos, e em Haia Mozart novamente caiu doente, desta vez acometido, junto com Nannerl, de um grave episódio de febre tifoide que durou dois meses. Depois passaram por várias cidades e neste período Mozart compôs variações para cravo sobre canções holandesas e seis sonatas para violino e cravo. Em seguida retornaram para Paris, onde o Barão Grimm os ouviu novamente e ficou admirado com os progressos do menino. Suas sinfonias foram apresentadas com boa receptividade e ele passou com brilhantismo nos mais difíceis testes que lhe foram dados, deixando seu público atônito. De Paris seguiram para o sul da França, antes de se dirigirem para a Suíça e Alemanha, e, por fim, rumaram para Salzburgo trazendo consigo um apreciável resultado financeiro.Sadie, pp. 9-10 Por algumas sonatas dedicadas à Rainha da Inglaterra, Mozart recebera a soma de cinquenta guinéus, o equivalente a cerca de dez mil dólares atuais, o que dá uma ideia da lucratividade das excursões,Gay, p. 21 sem falar nos preciosos presentes que ganhava, como anéis de ouro, relógios e caixas de rapé.Sadie (1988), p. 10