O Ribat de Arrifana (ou da Arrifana), igualmente conhecido como Castelo da Arrifana e Ribat da Atalaia, foi um complexo religioso e militar do período muçulmano, situado nas imediações da aldeia da Arrifana, no município de Aljezur, em Portugal. Segundo as fontes islâmicas, era utilizado como um convento para monges guerreiros, tendo começado a ser construído por volta de 1130 por Ibne Cassi, um líder muçulmano de Silves. Foi parcialmente convertido numa torre de atalaia no , que durou até ao . Foi identificado pelos arqueólogos em 2001 nas ruínas da Ponta da Atalaia. É considerado como um dos principais vestígios do período mouro em Portugal, tendo sido classificado como Monumento Nacional em 2013.
thumb|left|Sector I das ruínas do Ribat, em 2020 Descrição Localização O Ribat da Arrifana está situado na ponta da Atalaia, um pequeno promontório rochoso, na zona do Vale da Telha, na freguesia e concelho de Aljezur, parte do Distrito de Faro. A zona da Ponta da Atalaia foi escolhida principalmente por motivos de importância estratégica, uma vez que permitia, nos dias de céu limpo, vigiar a faixa costeira desde o Cabo de São Vicente até ao Cabo Sardão, no Alentejo. Além disso, estava situado numa área que nessa altura formava a fronteira entre a região reconquistada pelos cristãos e a que ainda era dominada pelos muçulmanos, e ao mesmo tempo estava afastado de Faro e Silves, que estavam controlados pelos inimigos de Ibne Cassi. Por outro lado, aquele local também tinha vantagens do ponto de vista religioso, estando situado relativamente perto de uma alcaria ou de um local de grande importância espiritual, de forma a melhor difundir tanto a mensagem sufista como os próprios ideais de Ibne Cassi, que seriam o princípio de um novo governo teocrático. A sua localização costeira, numa zona situada nos finais do mundo conhecido, também significava a ligação entre a terra e mar, e servia de metáfora entre os domínios do material e do espiritual.
thumb|Ruínas do Posto da Guarda Fiscal, junto aos vestígios do Ribat
Protecção e importância O Ribat da Arrifana é uma estrutura única no território nacional, sendo provavelmente o único complexo religioso do período muçulmano na zona ocidental da Península Ibérica. Com efeito, em toda a península apenas se identificou outro Ribat, o de , perto de Alicante. A importância do Ribat de Arrifana também advém da considerável quantidade de fontes que subsistem sobre o complexo e o seu fundador, Ibne Cassi, sendo relativamente bem conhecida a evolução histórica do Ribat, incluindo as causas e datas da sua construção e declínio. O Ribat é considerado o monumento do seu género mais importante em toda a Península, tendo a sua descoberta sido alvo das atenções de vários investigadores em toda a Europa. O sítio arqueológico foi visitado desde então por cidadãos de várias nações islâmicas, incluindo diplomatas e príncipes. O Ribat também é muito visitado pelos turistas.
O conjunto foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 25/2013, de 25 de Julho. Foi o primeiro vestígio arqueológico a possuir aquela categoria no concelho de Aljezur. Em 2014, o estado ainda tinha iniciado o processo para a aquisição dos terrenos onde se encontrava o Ribat, apesar de ter sido planeado no âmbito das obras da Sociedade Polis Litoral Sudoeste.
Significado e composição Um Ribat ou Rîbat é um complexo fortificado que também tinha funções religiosas, servindo de base a monges guerreiros de origem muçulmana, que faziam voto de pobreza. Desta forma, possuía vários edifícios religiosos, como uma mesquita, e outros que funções mais militares, como uma cavalariça. O complexo foi organizado de forma hierarquizada, de forma a corresponder a vários níveis de funcionalidade e simbolismo, tendo sido identificadas quatro grandes áreas, de funções diferentes, adaptadas à situação do terreno onde se encontravam. A península em que se situava o Ribat estava rodeada, do lado de terra, por um longo muro, do qual foram escavadas pelo menos duas partes.
O Ribat da Arrifana partilha algumas características com o de Guardamar e com outros no Norte de África, como a organização urbanística aberta, a falta de uma muralha de defesa, e a adaptação das estruturas à ondulação do terreno. No contexto do interior do Algarve, o Ribat fazia parte de um conjunto de estruturas militares relacionadas com Silves, que também incluía o Castelo de Alferce.
thumb|left|Sector 4 das ruínas, em 2020 Entrada e necrópole (Sector 4) A entrada do Ribat fazia-se pelo lado Sudeste, onde estavam vários edifícios, incluindo duas ou três mesquitas, sendo talvez nesta área que se fazia a introdução aos princípios sufistas. Também no lado Sueste existia uma necrópole, como se pode comprovar pela existência de sessenta e cinco sepulturas, das quais sete foram totalmente investigadas. Estas sepulturas possuem formas rectangulares ou trapezoidais, mas são de tamanhos e constituições diferentes, tendo algumas sido anexadas às paredes das quiblas das mesquitas na zona da entrada. As sepulturas possuíam tumuli baixos em terra e estavam rodeadas por muretes em xisto, Cada sepultura foi utilizada para um só indivíduo, que foram enterrados em decúbito lateral, sobre o lado direito, no sentido de Sudoeste para Nordeste, e com a face virada para Sudeste, na direcção de Meca. Além das sepulturas de origem muçulmana, foram encontradas três que tinham orientação cristã, que podem ter pertencido a combatentes cristãos que lutassem como islâmicos. Os túmulos tinham estelas anepígrafas de pequenas dimensões, excepto por duas delas, onde tinham sido gravados textos maiores, e que ainda se encontravam no local. Estas estelas epigrafas são consideradas de grande interesse, uma vez que são as únicas do período islâmico encontradas no seu local de origem, em toda a Península Ibérica. Segundo a arqueóloga Rosa Varela Gomes, a necrópole ainda se encontrava em bom estado de preservação, algo de pouco comum entre as estruturas daquele tipo do período islâmico. No limite Norte da necrópole encontrou-se um edifício que provavelmente serviria para a lavagem e preparação dos cadáveres para o enterramento, e que possuía uma bancada, um depósito para água e uma tina que tinha sido escavada no solo, e cujo pavimento e paredes foram revestidos com massa. Junto à necrópole existia uma zona, identificada como sector 4, que estava separada por um muro, e onde se situava uma escola corânica ou madraça, que tinha um pátio de grandes dimensões e várias celas anexas no sentido sueste. A necrópole pode ter sido rodeada por um muro.
Acesso à Ponta da Atalaia (Sectores 1 e 2) Na zona Oeste, onde a península de estreitava, existia outra zona própria, classificada como sector 1, que seria provavelmente a parte mais activa dentro do ribat, e que serviria como ponto de controlo no acesso ao promontório da Atalaia. Esta seria a única forma de aceder à ponta em si, que era naturalmente protegida pelas arribas da costa. Esta zona de acesso estava densamente ocupada por edifícios, incluindo quatro mesquitas de planta rectangular, uma delas de grandes dimensões, que estava compartimentadas e tinham o mirabe virado para Meca, na mesma parede em que estava o portal de entrada. Também foram identificados vários edifícios rectangulares, dois deles de dimensões superiores, com pátios e divididos em vários compartimentos, que seriam certamente habitações. Foram descobertos edifícios residenciais de características muito semelhantes no Castelo de Salir. A poucos metros de distância das casas, no sentido Sul, fica o sector 2, onde estava uma pequena mesquita com vários anexos, mesmo junto à orla costeira, que provavelmente estaria reservada para uma figura de alta importância.
thumb|Ruínas da Mesquita, no sector III Ponta da Atalaia (Sector 3) No topo do promontório, classificado como sector 3, existia outro grupo de edifícios, incluindo uma mesquita com muro para orações e um minarete de planta circular. Aquele local seria provavelmente o mais sagrado em todo o complexo. Este núcleo terá sido provavelmente a primeira parte do Ribat a ser construída, podendo a mesquita ter sido utilizada pelo mestre, devido à sua localização simbólica, e à presença do minarete, que era utilizado para chamar os crentes para as suas orações diárias. Este minarete muito provavelmente também serviria para vigiar a costa, utilização que continuou a ter após a reconquista cristã, tendo sido reaproveitado no como torre de vigia.
As paredes dos edifícios foram construídas em taipa estucada e caiada sobre um embasamento de alvenaria em xistos, grauvaques e arenitos, enquanto que as coberturas seriam em madeira com telha de canudo, formando telhados de uma só água, ou terraços em madeira e terra crua. O solo dos edifícios era em terra batida.
Espólio No local foi encontrada uma quantidade de artefactos mais reduzida do que o habitual em contextos habitacionais, o que pode ser explicado pelo reduzido período de ocupação. Foram encontradas peças relacionadas com várias actividades diárias, tal como a preparação e o consumo de alimentos, caça e pesca, captura de moluscos, e fiação e tecelagem, e outras que apontam para uma utilização espiritual, como placas de xisto epigrafadas dentro da estrutura dos edifícios, muitos candis, alguns amuletos, e várias inscrições de fé a Deus. As peças de cerâmica encontradas são fragmentos de taças, púcaros, jarros ou jarras, alguidares e panelas, cujo estilo simples e decoração apontam para o intervalo entre os séculos XII e XIII. Também foi descoberta uma garrafa de vidro, cossouros, pesos de tear, vários objectos em osso e pedra, e outros em metal, como rolos de chumbo e armas. Também foram descobertos restos de alimentação, como vestígios de moluscos. Na necrópole, foram encontradas partes de esqueletos humanos.
thumb|Pormenor de um mirabe, no sector III das ruínas
História Construção e declínio O Ribat foi fundado por Ibne Cassi, um líder islâmico natural de Silves. Originalmente um funcionário na alfândega daquela cidade, decidiu dedicar-se a fundo na religião, tendo entrado numa zauia ou azoia (ermida islâmica) na Arrifana, para iniciar uma vida de meditação e recolhimento, e oferecido metade dos seus bens aos mais pobres. Afirmou-se como mádi, e criou um novo grupo político religioso, conhecido como movimento murídino. Envolveu-se numa Jihad (guerra santa) pelo domínio da região Sudeste da península, tendo combatido contra as dinastias almorávida e almóada, que controlavam as cidades de Silves e Faro. Ibne Cassi desenvolveu a azoia com o que restava dos seus bens, tornando-a num ribat, que seria a base para a sua força espiritual e militar. A fundação do Ribat em si foi feita por volta de 1130. O complexo passou por três fases distintas de expansão, como pode ser provado pelos vestígios de obras de ampliação e renovação dos edifícios, principalmente na maior mesquita.