A história do anglicanismo no Brasil inicia-se no século XIX, no contexto da transferência da corte portuguesa para o Brasil, o que trouxe destaque para a região nas relações exteriores e possibilitou a abertura das primeiras capelas anglicanas no país. O anglicanismo é o grupo protestante mais antigo em operação contínua no Brasil. Inicialmente vinculado à Igreja da Inglaterra e restrito aos membros da colônia britânica, o anglicanismo começou a arregimentar fiéis brasileiros após as iniciativas missionárias de membros da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, que obtiveram êxito a partir de 1889, quando foi proclamada a República, o que desvinculou a Igreja Católica do Estado brasileiro e permitiu a livre conversão dos brasileiros a qualquer religião além da católica. Em 1955, as capelas anglicanas mantidas pela Igreja da Inglaterra fundiram-se ao distrito missionário do Brasil, então operado pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Dez anos mais tarde, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) foi oficialmente separada da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, tornando-se a 19ª Província eclesiástica autônoma da Comunhão Anglicana. Desde então, houve diversos cismas no anglicanismo brasileiro, geralmente em resistência à aceitação de costumes mais liberais pela IEAB, além da introdução de jurisdições estrangeiras não vinculadas à Comunhão Anglicana. Atualmente, todas as vertentes existentes no movimento anglicano internacional – anglo-católica, evangélica, liberal e carismática – encontram-se representadas no país.
Em 2000 os anglicanos foram estimados em 0,2% dos evangélicos de missão em pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o que correspondia a na época a 13.880 membros. Em 2009, nova pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas estimou os anglicanos em 0,01% da população brasileira, à época 19.400 membros.
História Origem do anglicanismo
O cristianismo chegou na Inglaterra entre os séculos I e II, antes do fim da perseguição aos cristãos no Império Romano. Inspirada na antiga religião celta, a fé cristã desenvolveu tradições e práticas distintas nas ilhas britânicas, se tornando o que estudiosos posteriormente chamariam de cristianismo céltico. Esta forma de religiosidade seria mais espiritual, ecológica e mística, embora não haja um consenso entre os acadêmicos. Em 597 d.C. o então Bispo de Roma, Papa Gregório enviou Agostinho e 40 monges beneditinos numa missão para converter os anglos e unificar os celtas à Igreja Católica. Através de um acordo, os líderes religiosos locais se submeteram à autoridade papal. Com a ajuda de cristãos residentes em Kent, Agostinho estabeleceu a sede da Igreja de Roma na Inglaterra em Cantuária, capital do Reino de Kent, e se tornou o primeiro Arcebispo de Cantuária em 598 d.C. Embora algumas práticas do cristianismo céltico tenham sido alteradas após o Sínodo de Whitby, em 664 d.C., os cristãos locais já reconheciam a autoridade papal.
O anglicanismo surgiu enquanto prática religiosa distinta do catolicismo romano a partir de 1534, quando o Rei Henrique VIII, movido a interesses políticos e pessoais, proclamou a independência da Igreja da Inglaterra da Igreja de Roma,Calvani, Carlos Eduardo. "Anglicanismo no Brasil". Revista USP. São Paulo: n.67, p. 36-47, setembro/novembro 2005. Página visitada em 6 de julho de 2015. rechaçando a autoridade papal. O monarca desejava anular seu casamento com Catarina de Aragão, visto que esta não havia dado-lhe um herdeiro do sexo masculino. No campo político, a ruptura significaria o fim do repasse de impostos a Roma e o término da subordinação do rei ao Tribunal Eclesiástico.Cottret, Bernard. "Henrique VIII, o primeiro anglicano". Tradução de Rosane Mavignier Guedes. História Viva. Página visitada em 31 de julho de 2015. A nova igreja, que se considera uma continuidade da Igreja primitiva por não haver rejeitado a fé católica e apostólica, logo se espalhou pelas colônias britânicas no Novo Mundo. No Brasil, no entanto, a religião oficial imposta pelos dominadores portugueses era o catolicismo romano e as tentativas de missionarismo protestante fracassaram devido à repressão da Coroa portuguesa.Kickhofel, Oswaldo. "Apontamentos de História da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil". Centro de Estudos Anglicanos. s/d. Página visitada em 6 de julho de 2015.
A chegada de cidadãos britânicos no Brasil A historiografia brasileira e muitas obras de história eclesiástica relatam que a introdução do Anglicanismo no Brasil ocorreu no início do século XIX, com o estabelecimento de capelanias para atender aos súditos do Império Britânico presentes em solo brasileiro. A assinatura do Tratado de Comércio e Navegação entre Portugal e Inglaterra não só impulsionou as relações comerciais e diplomáticas entre as duas nações amigas, mas também criou as condições necessárias para a chegada do culto anglicano ao Brasil.
Porém, também existe a tese de que o culto anglicano se estabeleceu primeiro em Pernambuco durante a ocupação holandesa no século XVII, sendo defendida por alguns estudiosos, como o historiador José Antônio Gonsalves de Mello,MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. Recife: 1987. e nas teses de Maria Eduarda Castro Magalhães MarquesMARQUES, Maria Eduarda Castro Magalhães. Homens de negócio, de fé e de poder político: a Ordem Terceira de São Francisco do Recife, 1695-1711. Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura, do Departamento de História da PUC-Rio. Doutorado em História Social. 2010. 242 f. e Rafael Vilaça Epifani Costa.COSTA, Rafael Vilaça Epifani. 'Unidade na diversidade, unidade na adversidade': a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e as múltiplas identidades do anglicanismo no século XXI. Tese (Doutorado) - Universidade Católica de Pernambuco. Pró-Reitoria Acadêmica. Coordenação Geral de Pós-Graduação. Doutorado em Ciências da Religião. 2021. 650 f.COSTA, Rafael Vilaça Epifani. História do Anglicanismo no Nordeste e a Diocese Anglicana do Recife. Porto Alegre: 2022. Ele menciona que, durante o governo de Maurício de Nassau, havia uma comunidade de ingleses em Recife, assistida por um capelão, o reverendo Samuel Batsealer, chamado de Ecclesiastes Anglicanus Mauritstadii. A presença inglesa no Brasil Holandês era significativa, com registros de uma companhia de soldados ingleses composta por 150 a 180 homens, comandada por John Godlad. Além disso, Batsealer é citado como ministro da igreja inglesa, cujo templo ficava localizado no Convento e Igreja de Santo Antônio.
O primeiro missionário anglicano a pisar em solo brasileiro no século XIX foi Henry Martin, em 1805. Ele aportou em Salvador, na Bahia quando seu navio seguia viagem para a Índia. Ele permaneceu por duas semanas na cidade, onde manteve contato com padres que falavam francês e latim. Em sua visão, o Brasil era um país escravizado pela idolatria e pelo "cristianismo espúrio". Ele desejava fazer algo contra essa situação, mas era impedido de converter brasileiros pela legislação da época.
Em 1808 a corte portuguesa se transfere para o Brasil e o país, embora mantivesse sua situação colonial, ganhou maior autonomia e proeminência nas relações exteriores. Em 1810 Portugal e Inglaterra assinam o Tratado de Comércio e Navegação, o que permitiu a construção de capelas anglicanas em terras brasileiras, contanto que elas não tivessem a aparência de templos religiosos – não poderiam ter torres ou sinos – e não buscassem a conversão de brasileiros católicos.EVERY, Edward Francis. The Anglican Church in South America, Chapter I. 1915. Em Project Cantuária Nesse ano, ocorreram os primeiros cultos anglicanos do país – em inglês e voltados exclusivamente para estrangeiros.Member Church - Brazil. Anglican Communion. s/d. Página visitada em 5 de julho de 2015. Antes da assinatura do tratado, os anglicanos residentes no Brasil reuniam-se em residências e navios ingleses para realizarem seus cultos. 320px|thumb|A Capela Anglicana do Recife (1838-1946) em fotografia do estadunidense Charles Fredricks, 1851.
Em meados daquele século, as três principais cidades brasileiras, que haviam ganhado ainda na década de 1810 cemitérios para a colônia inglesa, já abrigavam templos anglicanos: em maio de 1822, a primeira capela anglicana do país, a Christ Church, foi aberta no Rio de Janeiro; em maio de 1838, houve a fundação do primeiro templo anglicano no Recife, a Holy Trinity Church; e em outubro de 1853, foi inaugurada a capela de Saint George's Church em Salvador. Surgiram ainda capelas anglicanas em Nova Lima e Mariana, cidades de Minas Gerais que desenvolveram numerosas colônias britânicas devido à exploração das minas de Morro Velho e da Passagem por empresas inglesas.Silva, Hernani Francisco. "10 fatos que você não sabia sobre a escravidão nas igrejas evangélicas no Brasil" . Afrokut. 21 de junho de 2016. Página visitada em 10 de janeiro de 2017. As capelanias inglesas, como ficaram conhecidas, eram subordinadas diretamente à Igreja da Inglaterra, e atendiam somente os cidadãos da Coroa britânica. 320px|thumb|A Capela Anglicana de Salvador (1853-1975) em fotografia do suíço Guilherme Gaensly, circa 1870.
Os capelães anglicanos não faziam oposição ao status quo vigente, sendo alguns fiéis donos de escravos, em oposição aos esforços da Igreja da Inglaterra para abolir a escravidão. Segundo o Reverendo Boys, capelão da ilha de Santa Helena, que passou algum tempo no Rio de Janeiro, havia naquela época cerca de 1.500 comerciantes ingleses na então capital do Brasil que possuíam, juntos, pelo menos dois mil escravos. Há registros do batismo forçado de escravos pertencentes a James Thornton, Robert Palmer (da Christ Church) e John Alexander e Coronel Skerit (da colônia mineira), embora o proselitismo anglicano fosse proibido segundo os termos do tratado de 1810.
Segundo Elisete Silva, a comunidade anglicana era "ausente dos problemas sociais e políticos da população".Silva, Elisete. "Visões protestantes sobre a escravidão". Centro de Estudos Anglicanos. s/d. Página visitada em 20 de julho de 2015. Os ingleses residentes em Salvador, que frequentavam cultos anglicanos — à época realizados em residências —, eram proprietários de escravos que utilizavam como mão de obra doméstica ou em empreendimentos de caráter manufatureiro que mantinham. Seus escravos, em sua maioria de origem muçulmana, estiveram entre os líderes da Revolta dos Malês, ocorrida em 1835. Dos 160 acusados de liderar a revolta, 45 pertenciam a ingleses residentes no bairro da Vitória.
Embora alguns anglicanos não estivessem interessados em manter escravos, tampouco eram sensíveis à luta e às condições deles. Alguns ingleses que congregavam na Saint George's Church, como Edward Jones, George Mumford e George Blandy tentaram deixar seus escravos de herança para seus sucessores. Seus herdeiros, cidadãos da Coroa britânica, eram impedidos de manter escravos pela legislação inglesa. Ao invés de conceder alforria aos escravos, o que poderiam fazer como novos donos, negociaram uma barganha financeira com os demais herdeiros, cidadãos brasileiros, que poderiam ser proprietários de escravos. Para o Reverendo Robert Walsh, incrédulo de que cidadãos britânicos pudessem comprar e vender seres humanos, o Brasil mudava a natureza das pessoas. Sobre uma cena que presenciou, o capelão — que esteve no país entre 1828 e 1829 numa missão — escreveu: "[estando] em um país estrangeiro e em contato com a escravidão a sua natureza parece modificar-se, e ele passa a vender não só a mãe de crianças como as crianças também, e com tanta indiferença como se fosse uma porca e sua ninhada".Silva, Hernani Francisco. "Pedir perdão ao povo negro". Igreja Metodista de Vila Isabel. 15 de novembro de 2007. Página visitada em 10 de janeiro de 2017.
Missionários americanos e a indigenização