thumb|300px|direita|Philosophia et septem artes liberales ("Filosofia e As Sete Artes liberais"). De Herrad de Landsberg da obra Hortus Deliciarum (século XII).
Artes liberais (do latim ars liberalis) é o termo que define uma metodologia de ensino, organizada na Idade Média, cujo conceito foi herdado da antiguidade clássica. Contemporaneamente, o conceito de artes liberais denota a formação multidisciplinar visando a formação plena, sem necessariamente ser profissionalizante.
Referem-se aos ofícios, disciplinas acadêmicas ou profissões ("artes") desempenhadas pelos homens livres. São compostas do Trivium (lógica, gramática, retórica) e do Quadrivium (aritmética, música, geometria, astronomia). Tal conceito foi posto em oposição às Artes Mechanicae (artes mecânicas),Hans Vredeman de Vries and the Artes Mechanicae Revisited. Piet Lombaerde, Brepols, 2005. ISBN 9782503518138 Adicionado em 03/09/2014. consideradas próprias aos servos ou escravos.
A personificação das Sete Artes Liberais (Trivium et Quadrivium) foi um tema iconográfico muito comum nas artes medieval e moderna.
Artes liberais clássicas
O conceito de arte dado por Aristóteles, "a capacidade de produzir com raciocínio reto", ou ainda, "uma disposição suscetível de criação acompanhada de razão verdadeira", é capaz de fornecer alguns elementos acerca do conceito de artes liberais que os homens da Antiguidade e da Idade Média tinham.
Entre os romanos, Cícero e Sêneca, idealizaram a educação liberal que, para os latinos era fundada principalmente na retórica. As artes liberais eram consideradas as disciplinas próprias para a formação de um homem livre, desligadas de toda preocupação profissional, mundana ou utilitária. Contrapõem-se às artes mecânicas ou seja, às disciplinas não diretamente relacionadas a interesses imateriais, metafísicos e filosóficos, mas estritamente técnicos (voltados à produção de utilidades que sirvam às necessidade cotidianas do homem). Mediante o domínio das artes liberais, o homem seria capaz de produzir obras e ideias com poder de elevar o espírito humano para além dos interesses puramente materiais, rumo a um entendimento racional e livre da verdade.
Quanto ao conteúdo, as artes liberais clássicas não possuíam um número fechado de disciplinas. Por vezes, a dança, a poesia, a ginástica, a medicina e a arquitetura eram contadas como artes liberais.
Artes liberais no período medieval
Embora a expressão e o conceito de artes liberais tenha se originado na antiguidade, foi nas universidades medievais que adquiriu seu alcance e significado de Studium Generale. A partir de Marciano Capela no século VI d.C. convencionou-se enumerá-las em sete artes liberais.
No início da Idade Média, a educação liberal servia para preparar o clero e para a educação cortesã. Foi assim na reforma proposta por Alcuíno na Renascença carolíngia. Com o advento das universidades a partir do século XII, as artes liberais ganharam um aspecto propedêutico, servindo de iniciação aos graus superiores.
As sete artes liberais
Tradicionalmente, as sete artes liberais englobam, desde a Idade Média, dois grupos de disciplinas: o trivium, com as artes retórica, lógica (dialéctica) e gramática; o quadrivium, com música, aritmética, geometria e astronomia. O trivium concentra o estudo do texto literário por meio de três ferramentas de linguagem pertinentes à mente. O quadrivium engloba o ensino por meio de quatro ferramentas relacionadas à matéria e à quantidade.
O Trivium
Etimologicamente, trivium significa "o cruzamento e articulação de três ramos ou caminhos"JOSEPH, Miriam. O Trivium - As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. Tradução de Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realizações, 2014. p. 21. ISBN 9788588062603 Esse grupo de disciplinas incluía a lógica (ou dialéctica), a gramática e a retórica. As artes do trivium teriam como objetivo desenvolver a expressão da linguagem.
Representações do Triviumx240pxx240pxx240px Lógica (Dialéctica) Gramática 'Retórica' Joos van Wassenhove (século XV)
O Quadrivium
O quadrivium, etimologicamente o cruzamento de quatro ramos ou caminhos. Está voltado para o estudo da matéria, por meio do domínio das seguintes disciplinas: aritmética (a teoria dos números); em música (a aplicação da teoria do número), em geometria (a teoria do espaço) e em astronomia (a aplicação da teoria do espaço). De acordo com a definição de Irmã Miriam Joseph,JOSEPH, Miriam. p. 27. a matéria teria como característica essencial o número e a extensão, temas analisados respectivamente pela aritmética e pela música, bem como pela geometria e astronomia.
No âmbito do quadrivium, a música é entendida como o estudo dos princípios musicais (educação musical), tais como harmonia, não podendo ser confundida com a música instrumental aplicada (uma das sete belas-artes). O objetivo destas artes ditas "da quantidade" era prover meios e métodos para o estudo da matéria, sujeitos a aprimoramento no âmbito das disciplinas ditas superiores.
Representações do Quadriviumx240pxx240pxx240pxx240px Aritmética 'Música', Joos van Wassenhove (século XV). Geometria Astronomia (Astrologia clássica)Astrologia Classica e Antica Acessado em 26/11/2015.
Estudos superiores
thumb|direita|160px| Santo Tomás de Aquino e Aristóteles, na ocasião em que (ao primeiro) foi dito: "Bene scripsisti de me, Thoma"
As disciplinas ditas superiores (de acordo com a definição dada pelos conceitos clássicos e medievais) formavam a parte central e preparatória do currículo das universidades medievais, preparando o aluno para entrar em contato com as três principais formações de tais centros de saber: a medicina, o direito e a teologia.
Como outras artes normativas, que ajustam ou regulam segundo um padrão ou norma, as artes da linguagem consistem em estudos práticos que ajustam a linguagem segundo uma norma, como por exemplo:
o pensamento segundo a verdade; as palavras faladas e escritas segundo a correção; ou a comunicação segundo a eficácia.
É por isso que, no âmbito das artes liberais e dos princípios da educação superior, diz-se que "a verdade é a norma ou a meta da lógica", "a correção é a norma da gramática" ou "a eficácia é a norma da retórica".
Séculos XV-XVI
Nos séculos XV e XVI, as artes liberais medievais foram reorganizadas diante das grandes transformações sociais e intelectuais desse período. Sob a influência do Renascimento e do Humanismo italiano, o currículo medieval do trivium foi ampliado e renomeado como studia humanitatis, mantendo ênfase na gramática e na retórica, mas excluindo a lógica e introduzindo disciplinas como poesia, história e filosofia moral (ética). Esse enfoque clássico-humanístico visava desenvolver a eloquência e as aptidões consideradas essenciais no período, seguindo o ideal de humanitas (virtus). Paralelamente, inovações como a imprensa de Gutenberg (c. 1450) possibilitaram o acesso mais amplo ao conhecimento, barateando livros e difundindo rapidamente as ideias pela Europa. As grandes navegações e descobertas científicas, por sua vez, ampliaram o escopo do ensino: o contato com novos territórios acrescentou conteúdos de geografia e história , enquanto progressos astronômicos impulsionaram o estudo de matemática e astronomia nas escolas e universidades. A Reforma Protestante também influenciou o currículo ao valorizar o estudo dos textos bíblicos nos idiomas originais e usar a imprensa para propagar doutrinas, reforçando o ideal humanista de uma educação baseada nas artes liberais clássicas e no pensamento crítico. Em síntese,essas reformas curriculares podem ser interpretadas como uma resposta às novas exigências culturais, políticas e econômicas do período, orientando a formação para cidadãos instruídos e virtuosos adequados às transformações do seu tempo.
Essa valorização das studia humanitatis influenciou diversas áreas do saber, incluindo as artes visuais. É nas artes visuais que a retórica, tradicionalmente associada à arte da persuasão verbal, encontra no Renascimento um novo campo de aplicação. Nesse período, a pintura passou a ser concebida como um discurso silencioso, mas dotado de grande força argumentativa. Sob a influência do humanismo e da redescoberta dos autores clássicos, como Aristóteles, Cícero e Quintiliano, artistas e teóricos passaram a ver a imagem como veículo de raciocínio e emoção, capaz de educar e mover o espectador, tal como um orador faria em praça pública.
No campo da pintura, a valorização das artes liberais e do ideal humanista traduziu-se na adoção de uma abordagem intelectual da prática artística. A pintura passou a ser também concebida como um exercício racional, além de sua dimensão manual, comparável à elaboração de um discurso persuasivo. Autores como Leon Battista Alberti, em seu influente tratado De Pictura (1435), sustentaram que a pintura deveria seguir os mesmos princípios da retórica clássica: clareza, ordem e eficácia comunicativa. Para Alberti, a arte visual deveria atingir três finalidades fundamentais — docere (ensinar), delectare (deleitar) e movere (comover) —, exigindo do pintor uma composição capaz de comunicar ideias com inteligibilidade, beleza e força emocional. Além desses objetivos, a pintura renascentista incorporou os modos de persuasão aristotélicos, tradicionalmente vinculados ao discurso verbal. O ethos manifestava-se na credibilidade do artista e na autoridade moral atribuída às figuras representadas; o pathos, na capacidade da imagem de suscitar emoções no espectador, por meio de gestos, expressões e cenários dramáticos; e o logos, na racionalidade da composição, expressa no uso da perspectiva linear, na harmonia geométrica e na coerência simbólica do conteúdo representado miniaturadaimagem|Capa da Grammatica da Lingoagem Portguesa, de Fernão de Oliveira (1536). Atualmente, a obra encontra-se disponível para acesso no acervo digital da Biblioteca Nacional de Portugal Esse movimento de reestruturação das artes liberias também materializou-se na gramática, tendo como principal exemplo a publicação da Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, em 1536. Considerada a primeira gramática da língua portuguesa escrita em português, a obra é considerada uma das primeiras manifestações de consolidação do vernáculo como instrumento legítimo de saber e expressão. De acordo com Paul Teyssier, em sua obra História da Língua Portuguesa (1997), Oliveira não apenas descreve a estrutura do português, mas também o insere em um diálogo comparativo com o latim e o castelhano , abordando aspectos como fonética, etimologia, morfossintaxe e ortografia. Diferentemente das gramáticas normativas latinas do período, sua abordagem privilegia a descrição da língua tal como era falada, apontando para uma preocupação genuinamente linguística e identitária.
Paralelamente, o século XVI foi palco de reestruturações no campo da música, embora essa disciplina não ocupasse mais posição central na formação do “homem liberal”. Destacou-se a ascensão da polifonia como linguagem musical predominante. Caracterizada pela sobreposição de linhas melódicas independentes, essa prática organizou-se em contraponto, técnica que estrutura harmonicamente as vozes. Segundo Allan W. Atlas, esse modelo composicional aumentou a complexidade técnica da música renascentista e ampliou suas possibilidades expressivas . Novas formas musicais, como o madrigal, o moteto e a missa polifônica, passaram a conviver com repertórios igualmente significativos. Ao mesmo tempo, a música instrumental ganhou destaque, impulsionada pela ampliação do repertório e pela popularidade de instrumentos como o alaúde - este, vale destacar, torna-se-á símbolo da música na obra visual Os Embaixadores -, o cravo e a viola da gamba - estes últimos com papel reconhecido tanto em performances solo quanto em consortes - refletindo uma crescente autonomia da música sem texto
Iluminismo e a educação profissional oitocentista