A língua canoêGrande Dicionário Houaiss, verbete canoê ou kanoê, também algumas vezes referida como Kapixaná (Kapishana) ou Kapixanã, é falada atualmente por apenas cinco pessoas, remanescentes de uma ou duas tribos indígenas de igual autodenominação, que vivem relativamente dispersos na região sul do Estado de Rondônia, Brasil, na fronteira com a Bolívia.

Em termos de genealogia, o Kanoê tem sido classificado como uma língua “isolada”, ou seja, sem parentesco linguístico reconhecível com outras línguas indígenas; A língua, conforme pesquisas anteriores, é uma língua com alto risco de extinção a curto prazo, devido diversos fatores, dentre os quais se destacam: 1) a baixa quantidade de falantes e a idade avançada dos mesmos. 2) o processo de perda cultural, histórica, e social que os Kanoê sofrem desde o avanço do agronegócio sobre o estado de Rondônia.

Região e tribos falantes Os falantes de Kanoê pertencem a dois grupos. O primeiro grupo, em um elevado estágio de perda traumática e irreversível da identidade etnocultural e linguística, além de destribalização, pela absorção gradual e contínua de traços e valores da cultura opressora, é composto de aproximadamente 97 pessoas, das quais apenas três idosos ainda falam o Kanoê. Quanto aos demais, alguns adultos são bilíngues em Português e uma outra língua indígena eventualmente, ao passo que os jovens são monolíngues em Português. O segundo grupo, descoberto em 1995, hoje está reduzido a uma única família de dois adultos monolíngues em Kanoê, e um adolescente, últimos remanescentes de uma aldeia Kanoê, que recebia a denominação de “Cabeça Seca”, conforme os relatos coletados para as análises linguísticas.

O primeiro grupo, denominado Kanoê de Deolinda-Rio Guaporé, apresenta um alto grau de inculturação, ou seja, os indivíduos são índios conforme a lei, são tutelados e recebem o apoio da FUNAI - Fundação Nacional do índio, entretanto o grupo já perdeu sua identidade linguística e suas tradições culturais, além da referência do próprio território. Contudo, os índios ainda têm consciência de que são uma etnia indígena, um povo unido por uma origem em comum e vínculos de parentesco.  

Em 2002, dentre os Kanoê de Deolinda-Rio Guaporé, havia apenas três falantes da língua nativa: Teresa Kanoê, na época da documentação com aproximadamente 74 anos, que vivia em Guajará-Mirim. Júlio Kanoê, também septuagenário, que habitava na Área Indígena de Sagarana; e Francisco Kanoê, o mais idoso, com mais ou menos 75 anos, morador da Área Indígena do Rio Guaporé. Esses falantes são potencialmente bilíngues em Português e Kanoê, mas onde e como viviam não havia mais uma situação social em que podiam falar sua língua nativa. Esse primeiro grupo vive relativamente disperso, entre a cidade de Guajará-Mirim, e a maioria ao longo da margem direita do rio Guaporé, a maioria em parques e áreas indígenas.

O segundo grupo, isolado, denominados “Kanoê isolados do Omeré”, são reduzidos a apenas 3 pessoas de uma única família, constituída por Txinamanty, uma mulher de estimados 30 anos; seu irmão, Purá, aparentando 27 anos; e um adolescente, nascido no início de 2002. Essa família é monolíngue em Kanoê. Os “isolados do Omeré”, refugiaram-se numa reserva de floresta dentro da área de uma fazenda, e conseguiram viver apartados do contato direto com o homem “civilizado” e com outros grupos indígenas, salvo com os Akuntsum, único grupo indígena vizinho, que também vivia apartado. Assim, durante muito tempo os Kanoê de Deolinda-Rio Guaporé não sabiam da existência dos “isolados do Omeré”, assim como estes não sabiam da existência daqueles.

História da língua e do povo Kanoê Em 1984, madeireiros que trabalhavam na fazenda Yvipytã comunicaram à FUNAI um primeiro contato com índios desconhecidos, que teriam disparado flechas contra eles. Em 1985, Marcelo dos Santos encontrou vestígios da presença dos índios e evidências de um possível massacre na área da mesma fazenda. Em 1986, Marcelo conseguiu que a FUNAI, os Ministérios do Interior e da Justiça interditassem a área para fins de pesquisa; mas, por outro lado, o proprietário das terras também agiu no plano federal e obteve a reintegração de posse da fazenda ainda em formação. Quando os técnicos indigenistas retornaram para mais uma inspeção, encontraram muitos homens e tratores trabalhando no desmatamento e no plantio de pastos: boa parte da área já havia sido destruída rapidamente, inclusive os locais nos quais havia vestígios de presença indígena.

Marcelo e Altair decidiram continuar sigilosamente as investigações e, apoiando-se em fotos de satélites, que indicavam algumas pequenas clareiras nas reservas de mata, levantaram a hipótese de serem roças indígenas. De fato, com ajuda de alguns índios Nambikwara, os técnicos fizeram várias expedições, nas quais encontravam roças indígenas, mas nunca os próprios índios.  

No final de agosto de 1995, respaldado por liminar judicial, Marcelo dos Santos e seus auxiliares conseguiram realizar nova expedição até que, após quatro dias de investigações na floresta, conseguiram chegar à aldeia dos Kanoê, a mais ou menos 20 km do local onde anteriormente haviam encontrado os indícios de presença indígena. O grupo foi finalmente contatado em 3 de setembro de 1995 pelos técnicos indigenistas Marcelo dos Santos, o chefe da expedição, e Altair Algayer, ambos da FUNAI, depois de dez anos de investigações.

Por meio da linguagem gestual e da oferta de presentes, Marcelo dos Santos e sua equipe conseguiram a aproximação com os Kanoê isolados, sem, no entanto, terem condições de identificá-los como tais. Os momentos emocionantes do primeiro contato foram registrados pelo fotógrafo Marcos Mendes, da Agência Estado, e documentados em vídeo pelo cinegrafista Vincent Carelli, cinegrafista do CTI – Centro de Trabalho Indigenista. Apesar das limitações da comunicação gestual, Marcelo e Altair compreenderam que os Kanoê estavam indicando a presença de outro grupo indígena na mesma área, aos quais se referiam como “Akuntsum”.

Com efeito, um mês depois, a expedição conseguiu estabelecer contato com o grupo referido como Akuntsum pelos Kanoê. Mais tarde, coordenando sua equipe, Marcelo dos Santos descobriu a existência de um único índio, o “isolado do Tanaru”, cuja língua e identificação étnica ainda são desconhecidas, vivendo em outra área não desmatada de uma fazenda, ainda absolutamente arredio ao contato com o homem branco. Foram feitas várias tentativas de aproximação, com a participação de alguns intérpretes de outras línguas indígenas regionais, inclusive Kanoê, mas foram todas frustradas. Esse índio não respondeu às tentativas e mostrou-se hostil às possibilidades de contato.

A primeira grande surpresa em relação aos “Kanoê do Omeré” foi o fato de os mesmos não andarem efetivamente nus e usarem vários colares multicoloridos feitos com material plástico. Além disso, nunca se apresentavam sem estarem usando um chapéu típico, do mesmo formato do chapéu do homem branco, porém confeccionado com talas vegetais de palmeira entrelaçadas e, na aba, fitas de lona plástica preta. Usavam algumas peças de roupas em tecido industrial, as quais eles mesmos confeccionaram com relativo esmero. Some-se a isso que, na aldeia, foram encontrados alguns utensílios tais como garfos e facas de metal, vasilhame de alumínio e embalagens plásticas de produtos diversos. Esses utensílios, restos de acampamentos de madeireiros, seringueiros e palmiteiros, teriam sido coletados pelos Kanoê nas incursões pela floresta.

A segunda grande surpresa foi o fato de os Kanoê terem feito uma cerca de madeira quase intransponível no meio da floresta, separando o seu território do território dos Akuntsum. A relação entre os dois grupos indígenas isolados nem sempre foi muito amistosa e sempre difícil por não falarem uma língua comum. Pelo que Marcelo dos Santos pôde resgatar, através de Munuzinho Kanoê como intérprete, Tutuá Kanoê insistia em aproximar seus filhos dos Akuntsum, na esperança que Babá, o cacique, cedesse uma das moças – uma menina de aproximadamente 15 anos, para esposa de seu filho Purá. Ao mesmo tempo, Tutuá esperava que sua filha Txinamanty e sua sobrinha Aimoró se engravidassem ou de Pupaki, o único rapaz Akuntsum, ou do próprio cacique Babá. Mas as tentativas eram frustradas. Toda vez que se aproximavam, acabavam surgindo atritos e ameaças de morte em relação aos Kanoê, o que acabou fatalmente acontecendo: por ser mais nervosa e agressiva em relação a eles, Aimoró foi assassinada pelos Akuntsum, em meados de 1997. Essa morte abalou ainda mais as já estremecidas relações entre os Kanoê e os Akuntsum.

Segundo Altair Algayer, com a morte de Aimoró, os Kanoê tornaram-se relativamente mais tristes do que já eram, pois a moça tinha um espírito mais alegre e festivo. Era ela quem organizava alguns rituais que os Kanoê ainda mantinham. O problema das desavenças continuou, apesar de a família Kanoê insistir em aproximar-se mais e tentar uma convivência pacífica com os Akuntsum, as ameaças continuavam. Para minimizar o problema e evitar mais mortes, os técnicos da FUNAI intervieram e sugeriram aos Kanoê que mudassem sua aldeia para a outra reserva de floresta, do lado oposto, à margem esquerda do rio Omeré, aproximadamente a 3 km do acampamento.

História da documentação do Kanoê Provavelmente o documento mais antigo não publicado acerca da língua Kanoê é o Vocabulário das tribos Massacá, Salamãi, Coaiá e Canoê, de Estanislau Zack. Em relatório de expedição da Comissão Rondon, Zack apresenta uma lista de itens lexicais, comparando os vocabulários das línguas Aikanã, Kwaza, Kanoê e Salamãi, adaptando o material fonético dessas línguas à ortografia do Português. No que se refere ao Kanoê, houve uma avaliação dos 201 dados. O autor conseguiu transcrever muitos itens com relativa margem de fidelidade, o que torna o documento ainda mais valioso.

Becker-Donner apresenta 280 itens lexicais e algumas notas relativas a um possível quadro das vogais e consoantes do Kanoê. Embora haja certa margem de fidelidade nas transcrições (fonéticas), há também equívocos, o que absolutamente não desmerece o trabalho da antropóloga austríaca. Porém, a limitação do corpus restringe não só a análise fonológica, mas também estudos relativos à morfologia, à sintaxe e a outros aspectos da estrutura e da funcionalidade da língua.

Tão valiosos quanto o de Becker-Donner, outros documentos são uma lista de 70 itens lexicais, sob o subtítulo Kapišanã’, por Curt Nimuendajú, cujos dados foram elicitados em 1928, e um manuscrito de Bontkes contendo 341 itens, que compõem uma amostra do léxico Kanoê, ainda que alguns equívocos de interpretação e de transcrição fonética dos dados elicitados sejam observáveis.

Loukotka discorre sobre o possível parentesco entre línguas da bacia do Madeira, tratando Kanoê e Kapišana como línguas distintas. Posteriormente, Loukotka retoma essa distinção, baseando-se apenas em 16 itens extraídos dos documentos de Becker-Donner. A análise dos dados Kanoê apresentados revela alguns equívocos de elicitação ou transcrição, uma vez que possessivo de 1PS (1ª pessoa do singular) [ɲa] /ña/, transcrito nya-, aparece aglutinado ao nome que determina, gerando uma suposta diferença com os dados de Kapišana. Por exemplo, para “boca” aparecem i-kerá em Kapišana e estranhamente muin-gärä, em Kanoê. Na verdade, o que o informante provavelmente disse foi [ikɛ'ɾa] /ikera/ “lábio” e [ɲa ikɛɾa] /ña ikera/ “meu lábio”, pois, em Kanoê, a palavra para “boca” é [i'a] /ia/.  Para “língua”, aparecem i-táu, em Kapišana, e nyai-tal, em Kanoê, cuja tradução exata é [ɲa i'taw]  /ña itaw/ “minha língua”. Parece haver um equívoco nessa transcrição, pois é estranha a ocorrência de [l], já que, em mais de sete mil dados coletados de estudos posteriores, não houve nenhum caso de realização desse contóide.