thumb|300px|No sentido dos ponteiros do relógio: Ruínas da Cividade de Terroso, Americano na Praça do Almada em 1880, Avenida dos Banhos em 1921, Portão de Armas do Castelo da Póvoa, Praça Marquês de Pombal em 1909, Porto da Póvoa de Varzim na viragem do ao XX

A História da Póvoa de Varzim, cidade de Portugal, está desde épocas pré-romanas ligada ao mar, nomeadamente comércio marítimo e pesca, devido a estar localizada num dos melhores portos naturais portugueses. José Hermano Saraiva considerou-a uma cidade histórica complexa, de raiz piscatória, campestre e burguesa, onde artefactos de períodos distintos da história se misturam e se sobrepõem, tornando-se uma cidade de leitura pouco fácil.

As primeiras populações fixaram-se no seu território entre quatro a seis mil anos atrás. Por volta de , a instabilidade na região levou à fundação de uma cidade castreja fortificada, a Cividade de Terroso, que desenvolveu rotas de comércio marítimo com as civilizações da antiguidade clássica, em especial Cartagineses e Romanos. A influência económica e cultural destas duas potências rivais arcaicas é verificável no território poveiro através de achados arqueológicos.

A Póvoa de Varzim moderna emergiu depois da conquista da cividade pela República Romana por volta de , a pesca e fábricas de pescado desenvolveram-se pouco depois, constituindo as bases da economia local desde então. Em 1033, a pesca e campos férteis eram a base de um grande senhorio feudal, organizado na Honra de Varzim, no qual as heranças de inúmeras propriedades feudais eram mantidas juntas e administradas como uma unidade. A partir do reinado de , Varzim foi ferozmente disputada entre a Honra de Varzim e os primeiros réis de Portugal, o que levou à criação do município em 1308 e ser submetida ao poder monástico poucos anos depois. A importância da Póvoa de Varzim reemergiu com a Época dos Descobrimentos, com o apoio do rei , e devido à competência e riqueza dos seus construtores navais e navegantes, que negociavam à volta do mundo em rotas comerciais complexas. O poveiro, com a riqueza adquirida no comércio marítimo, usou da sua influência para libertar o burgo do poder monástico instituído em 1318 e, posteriormente, com o apoio da Arquidiocese de Braga, a porção do seu território controlado pela Casa de Bragança.

Pelo , a indústria de transformação de pescado tomou novo alento e, no , a Póvoa tornou-se no porto pesqueiro dominante no Norte de Portugal e acaba por dominar cultural e demograficamente a região circundante. Neste século inicia-se a tradição da Póvoa como praia balnear, e a cidade toma feição cosmopolita no , em plena Belle Epoque, o que instituiu uma cultura literária influente e patrocínio na música e no teatro de alcance nacional.

O seu desenvolvimento sofreu fortes constrangimentos desde as lutas destrutivas entre os senhores feudais de Varzim e os primeiros réis de Portugal, a fragmentação do seu território, o domínio monástico e, mais recentemente, o desenvolvimento de um estado bastante centralizado.

Etimologia O gentílico de origem romana Euracini foi evoluindo ao longo de séculos, de EURACINI passou a URACINI → VRACINI → VERACINI → VERAZINI → VERAZIM → VARAZIM até chegar ao VARZIM dos dias de hoje. A prova da evolução do nome Varzim figura, curiosamente, nos primeiros documentos escritos em português. O nome Villa Euracini aparece pela primeira vez documentado a 26 de Março de 953, no Livro da Condessa Mumadona Dias, em Guimarães. Desde então, várias denominações da cidade têm sido conhecidas: Vila Ueracini (1033), Vila Uerazini (1061), Vila Ueracin (1206), Varazim (1308), Bajlya da Poboa Noua de Varazim (1343), Villa da Povoa de Varzim (1514).

Todavia, outrora era popular uma outra origem para o nome Varzim, havendo ainda quem o classificasse de origem germânica dado ser da época da reconquista a mais antiga referência e além de aspectos culturais e históricos. Dados arqueológicos mais recentes e de evolução linguística, colocam "Varzim" como de origem romana. Existe ainda uma outra teoria de que derivaria de "Várzea". Esta teoria encontra-se totalmente desacreditada, mas é comum ressurgir quando são usadas como referências documentos antigos, cujos autores desconheciam a documentação medieval.

A palavra Póvoa, um tipo de povoamento medieval, foi adicionada em 1308 pelo rei D. Dinis aquando do foral em que o rei ordena a criação de uma póvoa no seu reguengo em Varzim.

Povoamento e a Póvoa pré-histórica

As origens do povoamento da Póvoa de Varzim datam de cerca , durante o Paleolítico Inferior com o achado de um biface acheulense em Beiriz e com os mesmos indícios acheulianos nas terras vizinhas de Vila do Conde e Barcelos. Os vestígios mais antigos, datados do Paleolítico, foram achados a norte da cidade, comprovando a forte atratividade do mar desde tempos muito remotos.

Os primeiros grupos de pastores instalaram-se em todo o litoral por volta do IV milénio e os inícios do As mamoas, nas quais o homem depositava os seus mortos, são os monumentos mais antigos no município. A nascente da cidade contemporânea, uma necrópole do Neolítico-Calcolítico pode ainda ser vista à volta dos montes de São Félix e da Cividade. Ainda são visíveis cinco mamoas: Mamoa de Sejães, Mamoa da Cova da Andorinha, Mamoa de Abade, Mamoa de Monte Redondo e a Mamoa da Estrada, quatro em volta do monte de São Félix, que se encontram todas violadas, e a Mamoa de Sejães na encosta do monte da Cividade que se encontra intacta após milhares de anos de povoamento. Existem ainda evidências de pinturas rupestres no Cabo de Santo André.

Urbanização castreja e comércio marítimo: 900—

thumb|Decúmano, rua central da cidade. Os primeiros edifícios construídos em granito apareceram no

A Era Castreja inicia-se no , quando algo mudou na região, com os saques e pilhagens levados a cabo por tribos rivais a motivar o abandono da planície litoral para a protecção fornecida pelos montes, em especial no monte mais próximo ao mar, erguendo um povoamento urbano, a que hoje se chama, Cividade de Terroso.

O povoamento da Cividade de Terroso, uma cidade-estado fortemente muralhada, terá sido feito no decurso da Idade do Bronze, entre os anos 900 e , como consequência da deslocação das populações residentes na planície litoral da Póvoa de Varzim. Isto é suportado pela descoberta de fossas ovoides, escavadas em 1981 por Armando Coelho, tendo sido recolhidos fragmentos de quatro vasos deste período. Segundo Armando Coelho: "fazem supor relações de parentesco, ou melhor dizendo, de filiação mútua, em que a rocha firme sobre que se implantaram, bem como a utilização de elementos de pedra na sua construção, correspondendo ao teor geral da arquitectura da Cividade".

thumb|esquerda|190px|Cerâmica castreja da cividade

No seu apogeu, a acrópole tinha cerca de 12 hectares e passou por várias fases de urbanização: as primeiras construções em pedra só começaram a aparecer no , devido à tecnologia dos picos de ferro, com origem na Ásia Menor, e trazida para a Península Ibérica por colonizadores fenícios na costa atlântica durante os séculos VIII e A população dedicava-se à agricultura, pesca, recoleção, pastorícia e trabalhavam os metais, têxteis e cerâmica. As migrações de Túrdulos e Célticos, provenientes do sul da Península e dirigindo-se para norte, são a razão para a melhoria do sistema defensivo dos castros por volta de

A Cividade mantinha relações comerciais com as civilizações mediterrânicas, e as visitas de fenícios, cartagineses, gregos e romanos tinham como propósito a troca de têxteis e vinho por ouro e estanho. A quase inexistência de vias terrestres na Península Ibérica prejudicava o desenvolvimento comercial, mas não o da Cividade de Terroso, por estar estrategicamente localizada à beira-mar e junto ao Rio Ave. Assim, as trocas comerciais eram vastas.

O comércio externo, dominado pelo estanho, era complementado com comércio doméstico em mercados tribais entre as diferentes cidades e aldeias da cultura castreja, eles trocavam têxteis, metais (ouro, cobre, estanho e chumbo) e artesanato, incluindo produtos exóticos, como vidro ou cerâmica de origem mediterrânica ou de outras áreas da Península. Este comércio era especialmente notável durante o domínio cartaginês do sudeste da Península Ibérica. A influência cartaginesa na cultura castreja da Póvoa de Varzim é evidente pelos achados arqueológicos na cividade e no restante território, notando-se nas jóias femininas, enquanto que as masculinas eram de origem celta. Influências culturais do interior da Península Ibérica também chegaram à cividade.

Ruinas castrejas satélites da cividade foram encontradas no vizinho monte de São Félix, provavelmente o posto de vigia norte da cividade; em Navais, onde resta um topónimo e uma fonte castreja romanizada e em Argivai, onde cerâmicas apareceram à superfície durante obras no IC1 em 1998, e detectados muros durante uma prospeção arqueológica em 2002, este local era, provavelmente, uma quinta castreja.

Conquista romana e fundação de Varzim: —411

thumb|150px|Ara votiva dedicada ao popular deus Marte. Marte foi identificado com Coso, o deus proeminente do litoral castrejo

Durante as guerras púnicas, os Romanos tomaram conhecimento da riqueza da região castreja em ouro e estanho. Viriato, que liderava as hostes lusitanas, impedia o crescimento da República Romana para o norte do rio Douro. O seu assassinato em abriu caminho para as legiões romanas. Entre este ano e , Décimo Júnio Bruto Galaico vindo do Sul do Douro avançou pela região castreja, esmagou os exércitos castrejos e tomou a Cividade de Terroso deixando-a em ruínas.

A região foi incorporada na República Romana e pacificada durante o domínio de César Augusto. O povo castrejo regressou à planície litoral, onde foi erguida Villa Euracini. A villa ter-se-á localizado no centro histórico da cidade da Póvoa de Varzim. O núcleo do povoamento estaria centrado na Vila Velha, onde foram encontrados vestígios de edifícios (aedificia) e cerâmica.

thumb|esquerda|280px|Representação de uma fábrica de peixe romana

A atividade piscatória desenvolveu-se com a criação de fábricas. A cetárias (cetariæ), fábrica localizada junto à costa no Alto de Martim Vaz, era um complexo fabril de salga e transformação de pescado em garo. A fábrica tinha tanques com 2,40 m de largura e de profundidade e estava rodeada de habitações, uma das quais data do e edifícios mais recentes. Uma via romana litoral ligaria a zona de Martim Vaz à Foz do Douro, e seguiria para norte, até Caminha. Uma outra fábrica de processamento de peixe e salinas existiam na rua da Junqueira, perto do núcleo de Villa Euracini, onde foram descobertas ruínas de edifícios e vários artefactos, incluindo vasos. Esta fábrica será mais antiga que aquela encontrada a norte da cidade, no Alto de Martim Vaz.

Um complexo de minas romanas foi criado junto ao monte de São Félix, a norte da Cividade de Terroso. Nos dias de hoje, é um pequeno lago denominado Lagoa Negra. Antes da conquista romana, acredita-se que o povo castrejo utilizava estas minas e que o minério, usado na produção das notáveis jóias castrejas da Póvoa de Varzim, tenha sido ali obtido. As minas foram exploradas, de forma significativa, durante o período romano e terão sido o motivo pelo qual a Via Veteres, uma estrada romana, atravessava a costa norte portuguesa.

O Cabo de Santo André, local religioso até aos dias de hoje, é o antigo promontório romano Auário Promontório (Auarius Promontorium), referido por Ptolomeu e com romanização visível. Provavelmente, a importância do local era anterior ao período romano. Uma necrópole romana foi descoberta na Giesteira, zona nascente da cidade. Vestígios desta necrópole foram também encontrados na zona limítrofe de Paredes, incluindo tégula romana.

Invasões de bárbaros, mouros e normandos: 411—1033 thumb|Barco identificado como normando esculpido na igreja do Mosteiro de Rio Mau