thumb|260px|Adélia Eberle, primeira rainha da Festa da Uva, em foto de Júlio Calegari (1932). A Festa da Uva, oficialmente Festa Nacional da Uva, é uma feira e uma festa comunitária brasileira realizada atualmente a cada dois anos em Caxias do Sul, no estado do Rio Grande do Sul, comemorando a história, a cultura e a produção agroindustrial da cidade e da região. A Festa da Uva, como hoje é conhecida, evoluiu a partir de uma série de feiras agroindustriais realizadas entre 1881 e 1931, que buscavam primariamente promover a cidade através da exposição dos seus produtos mais típicos. Em 1932 começou a ocorrer uma importante transformação em suas características, passando a incorporar ideologias e articular narrativas que enalteciam a imigração italiana, a ligação com a terra, a vitoriosa história de progresso da comunidade, a operosidade do povo italiano e seu papel de civilizadores e construtores de riquezas. Durante a Era Vargas, que impôs um rápido abrasileiramento da cultura italianizada da região, muitos dos laços com as origens e as tradições foram cortados, abrindo-se um período de crise de identidade para os locais em que a celebração foi suspensa.

Depois da Segunda Guerra Mundial, iniciando um período de reconciliação da nação com a herança italiana, a festa foi retomada, e desde então não mais sofreu interrupções. Embora a presença italiana tenha sido majoritária até meados do século XX, a partir de então a cidade começou a crescer rapidamente com a chegada de muitos migrantes de outras origens étnicas e culturais. Essa pluralidade, no entanto, só veio a se refletir nas narrativas e simbolismos da festa décadas mais tarde, quando passam a reconhecer e representar a contribuição de outros grupos para o crescimento de Caxias. Também modificou-se a relação com a uva e o vinho, a origem da celebração, que há muitas décadas deixaram de ser a base da economia local, atualmente centrada no setor industrial metal-mecânico e nos serviços. As mudanças no perfil da cidade têm gerado contradições e repetidas polêmicas no que diz respeito às representações que a festa faz de sua cidade, sua cultura e sua história, sendo um processo em permanente questionamento e adaptação aos novos tempos. Não obstante, ainda permanecem a uva e o vinho e as origens italianas e rurais da comunidade como focos históricos centrais do evento.

Hoje a Festa da Uva é o maior e mais dinâmico símbolo de Caxias do Sul e o principal sustentáculo da sua identidade coletiva, tem uma sede permanente num grande parque de exposições e é um dos maiores eventos temáticos do Brasil, atraindo em cada edição quase um milhão de visitantes, desempenhando um papel fundamental para a divulgação da cidade, para a dinamização do turismo regional, e para o resgate e conhecimento da história e das tradições, sendo ainda uma plataforma importante para o aquecimento da economia caxiense, estabelecendo-se muitos negócios através da Feira Agroindustrial, que é parte essencial de sua estrutura desde o início.

Antecedentes thumb|Colonos italianos exibindo suas uvas.

A Festa da Uva remonta aos inícios da colonização italiana em Caxias do Sul. No início do povoamento, a produção de uva e a indústria e comércio do vinho foram o principal esteio da economia local, e assim permaneceriam por décadas. As necessidades específicas do cultivo da uva e preparação do vinho determinavam toda a rotina e o ritmo do trabalho do agricultor, mobilizavam toda a família e muitas vezes exigiam a colaboração de vizinhos e empregados contratados. A preparação para esta época envolvia a confecção ou conserto de uma série de materiais como cestos, caixas, ferramentas e outros, e coincidia com o período de armazenamento de vários outros produtos básicos da época como o queijo, o salame e compotas de outras frutas que amadureciam na mesma estação. Segundo Cleodes Ribeiro, "nessas ocasiões, o grupo familiar e de vizinhança reforçam sua unidade, cooperação e seus interesses comuns. Ao período de colheita da uva está relacionado um tempo de ritualidade particularmente significativo na vida dos colonos. [...] Essa preparação ritualizada da colheita, e da vindima propriamente dita, encontraria sua culminância, de tempos em tempos, na celebração da Festa da Uva. [...] O tempo da colheita é, por analogia, um tempo de abundância que afeta toda a comunidade tanto quanto o é o tempo da carestia".Ribeiro, Cleodes Maria Piazza Julio. Festa e Identidade: como se fez a Festa da Uva. EDUCS, 2002, pp. 44-47

No entanto, esta festa não surgiu de imediato. Em 1881, foi organizada uma Feira Agroindustrial, que ocupou duas salas no edifício da Diretoria de Terras. Nove outras edições da feira ocorreriam nesta primeira etapa, nos anos de 1884, 1886, 1890, 1898, 1901, 1913, 1916, 1918 e 1925. Segundo João Spadari Adami, várias dessas edições foram um resultado secundário de objetivos mais amplos, mostrando localmente produtos que haviam de fato sido destinados para exposições em outros locais, ou se associaram a outros eventos. A primeira feira originou-se em função do desejo de representar a vila na importante Exposição Brasileira-Alemã organizada em Porto Alegre. Antes que os produtos fossem enviados, foram expostos e selecionados em Caxias. Entre esses itens estavam vinhos tinto e branco, graspa, ferramentas agrícolas, utensílios domésticos e frutos da terra. A segunda edição foi montada em função de uma exposição nos escritórios do Império Brasileiro em Milão e Gênova, a terceira para uma em Berlim, a quarta parece ter surgido para abrilhantar as solenidades de emancipação da vila, a quinta foi organizada em benefício das obras da Igreja Matriz, a sexta relacionou-se à grande Exposição Estadual de Porto Alegre, a oitava foi uma iniciativa do Clube Juvenil, a nona realizou-se em função da visita do embaixador da Itália, e a décima integrou-se às comemorações dos 50 anos da imigração italiana.Adami, João Spadari. Festas da Uva 1881-1965. São Miguel, 1966, pp. 6-23 Essas mostras, além de simplesmente evidenciarem a realidade econômica da cidade, desde logo buscavam afirmá-la também politicamente, provando publicamente o sucesso do projeto colonizador do Governo e a competência dos colonos.Ribeiro, p. 110 thumb|O intendente Miguel Muratore e sua família visitando a exposição de uvas de 1931.

Em 1931, Joaquim Pedro Lisboa organizou uma feira específica para os produtos que naquela época mais caracterizavam Caxias do Sul: a uva e o vinho, que eram a base da sua economia. A ideia motivadora fora essencialmente oferecer para os agricultores a possibilidade de entrarem em contato uns com os outros e trocarem experiências, e terem acesso a uma assessoria técnica provida pelos organizadores objetivando a melhoria da produção do vinho e das condições de cultivo das castas de videiras mais adaptadas à região, procurando também fazer os agricultores abandonarem a preferência pela uva Isabel, considerada imprópria para a produção de vinhos de alta qualidade. Desta forma, em 8 de março de 1931 foi inaugurada a primeira feira a levar o nome de "Festa da Uva", com uma exposição de uvas e vinhos montada nos salões do Recreio da Juventude.Ribeiro, pp. 85-87Tomazzoni, Edegar Luis & Zanirato, Silvia Helena. "Inovação e identidade vitivinícola da Festa Nacional da Uva de Caxias do Sul (Rio Grande do Sul, Brasil): os cursos de degustação de vinhos como estratégias de Turismo de Experiência". In: Turismo & Sociedade, 2014; 7 (3):576-598. Dossiê sobre Enoturismo.

A feira de 1931 é tradicionalmente considerada a primeira Festa da Uva, mas devido às suas características e seu objetivo muito específico, que diferem do modelo atualmente em vigor, a sua escolha como a festa inaugural é bastante arbitrária. Da mesma maneira, Joaquim Pedro Lisboa é tradicionalmente considerado o fundador da festividade, mas essa atribuição foi contestada já na década de 1960 por Adami, que atribuiu o mérito da idealização aos esforços combinados da Estação Experimental de Viticultura e Enologia de Caxias, da Prefeitura e da Sociedade Vinícola Rio-Grandense. Mais recentemente Miriam Santos, autora de um dos mais substanciais estudos sobre a Festa da Uva, voltou a questionar o papel de Lisboa: "Parece-nos claro que Joaquim Pedro Lisboa, que na época exercia o cargo de fiscal do Instituto Rio-Grandense do Vinho, não inventa uma exposição, mas cumpre a ordem de organizá-la. Observando-se deste ponto de vista, o papel de fundador da Festa da Uva deveria ser de Celeste Gobbato", ex-intendente municipal e então diretor da Estação Experimental.Santos, Miriam de Oliveira. Bendito é o Fruto: Festa da uva e identidade entre os descendentes de imigrantes italianos. Léo Christiano Editorial, 2015, pp. 69-73

Consolidação de um modelo thumb|Diretoria da Festa da Uva de 1932. De pé, Artur Rossarola, secretário; Ottoni Minghelli, vice-presidente, e Luciano Corsetti, tesoureiro. Sentado, Dante Marcucci, presidente. thumb|Família Boff em 1904, uma típica família de camponeses caxienses, exibindo o produto do seu trabalho na terra.

Tendo grande visitação e ótima repercussão, com o apoio decisivo da Associação dos Comerciantes, a iniciativa foi repetida e expandida no ano seguinte com uma nova e mais ambiciosa estrutura. Ganhou as ruas através do desfile de carros alegóricos, foi feita divulgação em nível nacional, foi organizado paralelamente o I Congresso Brasileiro de Viticultura e Enologia para ampliar a difusão do conhecimento técnico, e deixou de ter um alcance regional para se tornar um evento de destaque no estado. Porém, mais importante do que uma mera repetição da mesma ideia básica, nesta segunda edição a festa já apresentou também os fundamentos simbólicos e identitários que em linhas gerais mantém até hoje, que a tornam a principal festividade comunitária da cidade e um poderoso elemento de autoidentificação social e de consagração da história e da cultura que ali se formou.Ribeiro, pp. 87-91 Sua Diretoria foi composta pelo prefeito Dante Marcucci como presidente, Ottoni Minghelli como vice, Artur Rodolfo Rossarola na secretaria, e Luciano Corsetti na tesouraria.Adami, p. 26