thumb|230px|Planície aluvial no Parque Nacional de Cat Tien. O rinoceronte-de-java (nome científico: Rhinoceros sondaicus, do grego rhino, nariz + ceros, corno e sonda, Sonda + icus relativo a) é uma espécie da família Rhinocerotidae e uma dos cinco rinocerontes recentes. Ele pertence ao mesmo gênero do rinoceronte-indiano, possuindo muitas características semelhantes. Difere principalmente no tamanho (sendo menor que seu primo indiano), pelas placas dérmicas menos desenvolvidas, e por diferenças craniais e dentárias. Seus cornos são os menores dentre todas as espécies de rinocerontes e, muitas vezes, podem estar ausentes nas fêmeas.
Originalmente, estava distribuído nas ilhas de Java e Sumatra, e através do Sudeste asiático até à Índia, a oeste, e à China, ao norte. Há cerca de 150 anos, sua distribuição já estava reduzida a três populações separadas. Atualmente é encontrado apenas no Parque Nacional de Ujung Kulon, na ilha de Java, Indonésia. A população do Parque Nacional de Cat Tien, no Vietnã, foi extinta em 2010.
O rinoceronte-de-java é a mais rara das espécies de rinocerontes, com uma população estimada em menos de 100 indivíduos divididos nas duas áreas de ocorrência. Não há registro de espécimens em cativeiro na atualidade, e o último exemplar em cativeiro morreu em 1907 no zoológico de Adelaide, na Austrália. A perda do habitat e caça predatória, pelo uso de seu corno na medicina chinesa, foram as principais causas da redução populacional desses animais. E hoje, mesmo protegido nas reservas, ainda corre risco devido à perda da diversidade genética, doenças e pela caça ilegal.
Devido aos hábitos solitários, raridade, e por viverem numa área de instabilidade política, cientistas e conservacionistas raramente estudaram este animal em campo, sendo consequentemente a espécie de rinoceronte menos conhecida.
Distribuição geográfica e habitat A área de distribuição do rinoceronte-de-java tem vindo a reduzir-se há três mil anos, o que torna incerto o conhecimento da distribuição histórica desse animal. Até meados do século XIX, o rinoceronte-de-java estava distribuído, variando de abundante a escasso, na região de Sundarbans (Bengala Ocidental e Bangladesh), e em Mianmar, Tailândia, Camboja, Laos, Vietnã, Malásia e nas ilhas de Sumatra e Java (Indonésia). Registros nas regiões de Assam e do norte de Bangladesh são escassos e confusos, devido à sobreposição de distribuição com o rinoceronte-indiano e o rinoceronte-de-sumatra. Há apenas um espécime registrado no Butão. Exploradores holandeses do início do século XIX encontraram evidências de rinocerontes em Bornéu, entretanto, sua identificação era incerta, pois o rinoceronte-de-sumatra também habitava a ilha. Estudos recentes em Bornéu demonstraram que a hipótese do rinoceronte-de-java ter existido na ilha não deve ser descartada. Os registros da China são na sua maioria fósseis (do Pleistoceno) ou subfósseis (registros indicam que a partir de aproximadamente 1000 a.C., o limite meridional dos rinocerontes que se estendia ao sudoeste da China, começou a ser reduzido para o sul em cerca de 0,5 km por ano, devido à expansão humana e caça predatória).
A partir do século XIX, as populações de rinocerontes estavam isoladas em três regiões principais: Sundarbans e Mianmar adjacente; Indochina; e península malaia, Sumatra e Java. Rinocerontes-de-java foram visto regularmente no Sundarbans até 1892. O último animal morto, segundo registros oficias, foi em 1888, entretanto, aparições escassas e não confirmadas ocorrem até 1908. Em Mianmar, o último registro ocorreu em 1920, na Malásia em 1932, em Sumatra em 1959, e no norte do Vietnã em 1964.
No final da Guerra do Vietnã, acreditava-se que o rinoceronte-de-java estava extinto no continente, até ser reencontrado em 1988-1989 nas proximidades do Rio Dong Nai. Até 2010, os rinocerontes-de-java eram encontrados em somente duas localidades: o Parque Nacional de Ujung Kulon, no extremo oeste de Java, e no Parque Nacional de Cat Tien, a cerca de 150 km ao norte de Ho Chi Minh, no Vietnã. A população do Vietnã foi extinta em 2010, quando o último exemplar da espécie foi morto. Lenhadores e caçadores locais do Camboja disseram ter visto rinocerontes-de-java nas montanhas Cardamom, mas as incursões na área não encontraram qualquer evidência de sua existência.
O rinoceronte-de-java, primariamente, habita as planícies aluviais, florestas tropicais densas, juncais e canaviais que são abundantes próximo aos rios e áreas pantanosas. Apesar de historicamente preferirem regiões de baixas altitudes, no Vietnã, foram empurrados em direção a regiões mais altas (acima dos 2 mil metros), provavelmente por causa da expansão da população humana.
Descrição Ficha técnica Altura 160 – 175 cm Comprimento 300 – 320 cm Cauda 70 cm Peso 1.500 - 2.000 kg Tamanho de ninhada 1 Gestação 16 meses Desmame 1 - 2 anos Maturidade sexual 3-4 anos (fêmeas)6 anos (machos) Longevidade 21 anos (em cativeiro) O rinoceronte-de-java é menor que seu primo indiano, e semelhante em tamanho ao rinoceronte-negro. Não há diferenças marcantes entre os sexos, entretanto, Groves, através de análises das medidas craniais indicou que as fêmeas são maiores que os machos. Entre as populações, a subespécie vietnamita parece ser significativamente menor que a de Java, baseado em provas fotográficas e de medidas de pegadas. Assim como o rinoceronte-indiano, possui apenas um corno, que é o menor dentre todas as espécies de rinocerontes modernas, alcançando no máximo 25 centímetros. A fêmea, frequentemente, não possui o corno ou tem apenas uma pequena protuberância.
Muito similar ao seu primo indiano, tem a mesma coloração acinzentada, só que menos intensa, sua cabeça é menor, e suas placas dérmicas são menos desenvolvidas na região do pescoço. O lábio superior é acentuado e preênsil, assim como em outras espécies, ajudando a levar o alimento até à boca. Como em todos os rinocerontes, a audição e o olfato são desenvolvidos, e a visão é deficiente. Muitas das informações foram obtidas através do estudo de exemplares de museus, e por análises fotográficas e de amostras fecais. Raramente foi encontrado, observado e mensurado em seu ambiente natural.
Comportamento thumb|right|230x230px|Rinoceronte-de-java exposto provavelmente na Índia por volta de 1900. O rinoceronte-de-java é um animal de hábito solitário, com exceção da época reprodutiva, quando se pode vê-los aos casais e, posteriormente, as mães com seus filhotes. Às vezes, reúnem-se em pequenos grupos para lamber sal e chafurdar na lama. A chafurda na lama é um comportamento típico para todos os rinocerontes; essa atividade lhes permite manter a temperatura corporal fresca e ajuda a prevenir doenças e infestação parasitária. Os rinocerontes-de-java geralmente não cavam sua própria chafurda, preferindo usar a feita por outros animais ou as fossas naturais, que eles irão aumentar utilizando os seus chifres. A lambeção do sal também é muito importante por causa dos nutrientes essenciais que os rinocerontes recebem a partir do sal.
A extensão da área territorial dos machos é de 12 a 20 km², enquanto que a das fêmeas é de 3 a 14 km². A sobreposição de territórios entre os machos é menor do que a das fêmeas. Não se sabe se há brigas territoriais.
Os machos marcam seu território com pilhas de excrementos e pela pulverização de urina. O ruído de raspagem produzido pelas patas no chão e os brotos retorcidos de plantas também são usados para a comunicação. Os membros de outras espécies de rinoceronte possuem o hábito peculiar de defecar massivas pilhas de excremento e depois raspar suas costas nesse excremento. Os rinocerontes-de-sumatra e os rinocerontes-de-java não se dedicam a roçar as costas nas pilhas enquanto defecam. Cogita-se que essa adaptação no comportamento seja ecológica; nas florestas úmidas de Java e Sumatra, o método pode não ser proveitoso para espalhar odores.
O rinoceronte-de-java é menos sonoro que o de sumatra; poucas vocalizações foram registradas. Rinocerontes adultos não possuem predadores naturais, além dos humanos. A espécie, particularmente no Vietnã, é arisca e recolhe-se na mata densa quando detecta a presença de humanos. Todavia, quando o homem se aproxima demais, o rinoceronte-de-java se torna agressivo e ataca, golpeando com os incisivos da mandíbula enquanto move com força a cabeça para o alto. Seu comportamento anti-social pode ser um adaptação recente ao estresse populacional; evidências históricas sugerem que, como outros rinocerontes, a espécie foi no passado mais gregária.
Dieta O rinoceronte-de-java é um animal herbívoro e se alimenta de diversas espécies de plantas, especialmente de seus galhos tenros, brotos, folhas novas e frutos caídos. A maioria das plantas que compõem a dieta dessa espécie crescem em áreas ensolaradas, como clareiras nas florestas, arbustais e outros tipos de vegetação sem grandes árvores. O rinoceronte derruba as árvores novas para alcançar as partes mais tenras e apanhá-las com seu lábio superior preênsil.
Em um estudo realizado em 1982, pesquisadores identificaram 120 gêneros de plantas, pertencentes a 65 famílias, compondo a dieta do rinoceronte. Dentre estes, as plantas dos gêneros Amomum, Dillenia, Leea, Eugenia e Acronychia estão entre as mais consumidas.
É a espécie de rinoceronte mais adaptável em sua alimentação. Atualmente alimenta-se exclusivamente de folhas de árvores, mas provavelmente já houve tempo em que se alimentava tanto de folhas como de gramíneas, dentro da sua área de distribuição histórica. O rinoceronte ingere, em média, 50 quilos de comida diariamente. Como o rinoceronte-de-sumatra, o de java precisa de sal em sua dieta. Apesar de comuns em seu território original, não existem reservas de sal em Ujung Kulon; entretanto, os rinocerontes desse local já foram observados bebendo água do mar, provavelmente para suprir a mesma necessidade nutricional.
Reprodução Como a espécie é raramente observada de forma direta e não existem espécimes em zoológicos, os hábitos sexuais dos rinocerontes-de-java são difíceis de estudar. As fêmeas atingem sua maturidade sexual entre os três e quatro anos de idade, enquanto os machos são sexualmente maduros aos seis anos. Estima-se que a gestação ocorra num período entre 16 a 19 meses. O intervalo entre os nascimentos desta espécie é de quatro a cinco anos, e o filhote é desmamado por volta dos dois anos de idade. Como todas as outras quatro espécies de rinocerontes possuem comportamentos de acasalamento semelhantes, presume-se que os rinocerontes-de-java também os sigam.
Classificação thumb|230x230px|Esqueleto de Rhinoceros sondaicus por Georges Cuvier em seu livro Recherches sur les ossemens fossiles, où l'on rétablit les caractèes de plusieurs animaux dont les révolutions du globe ont détruit les espèces (1822).
Histórico A primeira descrição do rinoceronte-de-java foi feita por Jacobus Bontius (1592-1631), que viveu na Batavia durante seus quatro últimos anos de vida. Entretanto, ele não forneceu informações que pudessem indicar que se tratava de uma espécie distinta do rinoceronte-indiano. Nos séculos seguintes, relatos de rinocerontes em Java foram frequentes, mas nenhum sugeria, nem em termos vagos, qualquer diferenciação entre os rinocerontes da Índia e os de Java.
Os primeiros estudos com o rinoceronte fora de seu ambiente natural foram realizados por Petrus Camper (1722-1789), anatomista e paleontólogo holandês, que recebeu de seu ex-pupilo, Jacob van der Steege (1746-1811), um esqueleto, quatro crânios, uma língua e um pênis, de animais mortos na ilha de Java. Entretanto, Camper morreu antes de publicar seus estudos, que mostravam que os rinocerontes em Java diferiam dos da Índia. Após sua morte, seu filho Adriaan Gilles Camper doou um dos crânios para Georges Cuvier, que escreveu: "a cabeça do rinoceronte me parece, à primeira vista, de uma espécie diferente. Eu a observarei com um pouco mais de cuidado, e lhe enviarei o resultado final".