Tia Marcelina foi uma Ialorixá africana, reconhecida como fundadora do candomblé, em Maceió, Alagoas, no início do século XX. Em 1º de fevereiro de 1912 foi o principal alvo da série de ataques violentos, conhecida como Quebra de Xangô, crime de ódio promovido pela Liga dos Republicanos Combatentes.

Biografia Tia Marcelina era Ialorixá do terreiro mais antigo de Maceió, fundado no século XIX, e localizado na rua da Aroeira, atualmente conhecida como Praça Sinimbu. A africana fora contemplada com a Coroa de Dada, cargo religioso que se refere ao irmão mais moço de Xangô. Ex-escravizada, africana de Janga, Angola, e descendente do Quilombo dos Palmares e de família real africana, ao lado de personalidades como com Manoel Gelejú, Mestre Roque, Mestre Aurélio e outros, fundaram os primeiros Xangôs do Brasil. Entre os devotos e pessoas atendidas pela Ialorixá, estiveram autoridades políticas e figuras públicas.

Euclides Malta foi governador de Alagoas durante 2 mandatos entre 1900 a 1903 e 1906 a 1912. Em 1912 passou a ser perseguido pela comunidade e opositores sob alegações de ser frequentador das Casas de Xangô, como eram chamados os terreiros me Pernambuco e Alagoas. Pressionado com exigências e a violências das exigências por medidas contra os terreiros, Malta fugiu para Recife no início de 1912. As disputas políticas se somavam à perseguição às religiões africanas, afro-brasileiras e afro-indígenas, perseguidas e proibidas pelo Código Penal 1890 sob argumento de serem curandeirismo e feitiçaria.

Na noite de 01 de fevereiro de 1912, a Liga dos Republicanos Combatentes, um grupo miliciano armado com paus dirigiu-se aos terreiros com o intuito de os destruir. Por ser conhecida como fundadora do candomblé em Maceió e mãe de santo de Euclides Malta, Tia Marcelina foi o principal algo dos ataques. Seu terreiro foi invadido por mais de 300 homens. Agredida fisicamente, a Ialorixá viu seus pertences e objetos sagrados serem queimados. Diante da violência, Tia Marcelina clamou por Xangô e gritou em protesto:“bate moleque, lasca cabeça, quebra perna, quebra braço, tira sangue, mas não tira saber”(Almeida, 1987, p. 3)Em 08 de fevereiro de 1912, a Ialorixá foi alvo de ataques racistas na imprensa. O Jornal de Alagoas, publicou uma série de reportagens denominada "Bruxaria", perpetuando uma imagem depreciativa e racista de Tia Marcelina como "bruxa, feiticeira e megera". A notícia referia uma celebração pública realizada pela Iyá na Praça dos Martírios.

Tia Marcelina e outros mestres, como Félix, João Catarina. João Funfun e Manuel Guleijú, que sofreram com as batidas da política, milícias e grupos de ódio e que sofreram com constantes perseguições, foram gradativamente submetidos á lei do silêncio, e à esforços sistemáticos de apagamento da memória pública dos mesmos e da Quebra de Xangô. O trauma coletivo e a memória de violência levaram à modificações nas dinâmicas ritualísticas dos cultos afro-brasileiros em alagoas. A nova modalidade de culto passou a ser conhecida como "Xangô Rezado Baixo", em referência à retirada dos atabaques e palmas do culto, com o intuito manter a discrição e evitar barulhos que pudessem chamar a atenção dos vizinhos, que poderiam fazer denúncias à polícia. "Somente em 1925, Mãe Lucrécia e Tia Balbina teriam retomado os terreiros, que desenvolveram práticas especificas para ocultar os cultos – Xangô tocado baixo e o candomblé do fundo de quintal, que tem uma configuração espacial muito específica de Maceió".

Em 2007 o Movimento Negro de Alagoas e a Fundação Municipal de Ação Cultural, sob a presidência do professor Edson Bezerra e vice-presidência do professor Clébio Correia Araújo, criaram a evento "Xangô Rezado Alto" como ato de resistência, preservação da memória e combate à intolerância religiosa, quase 100 anos depois do ataque de 1912. Em 24 de agosto de 2022 o Governo do Estado de Alagoas inaugurou a Delegacia Especial dos Crimes contra Vulneráveis Yalorixá Tia Marcelina."O dia do Quebra carrega dor, e a memória de Tia Marcelina não pode ser apagada. Seu nome, hoje, simboliza resistência e justiça. Em sua homenagem, foi batizada a Delegacia Especial de Crimes contra Vulneráveis, localizada no bairro Mangabeiras, em Maceió.

O nome da delegacia é um marco histórico: além de homenagear uma das figuras mais importantes das religiões de matriz africana, reafirma o compromisso de garantir que os casos de intolerância religiosa sejam investigados e combatidos."A luta e memória de Tia Marcelina seguem inspirando a luta contra a intolerância religiosa e à crimes de ódio contra pessoas com deficiências, quilombolas, população em situação de rua, negros, ciganos, indígenas e à pessoas LBGTQIAP+.

Em 2016, em sua homenagem, foi criado o Prêmio Tia Marcelina. A iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh), em parceria com o Conselho de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas (CONEPIR) foi criada para reconhecer e homehagear pessoas e entidades que atuam na luta pela igualdade racial e trabalham para a promoção dos direitos dos negros e negras em Alagoas.“O Prêmio Tia Marcelina é um importante instrumento no enfrentamento à discriminação das religiões de matrizes africanas e das manifestações da cultura negra tão presentes nas nossas raízes. É um momento de reflexão e de fortalecimento em prol do respeito às tradições e conquistas da comunidade negra” (Mirabel Alves)Em 2025 o curta-metragem alagoano "Cartas à Tia Marcelina", dirigido por João Igor Macena, estudante da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), venceu o Prêmio da Mostra Ecofalante, em São Paulo, na categoria produções estudantis. O documentário integra pesquisa documental, bibliográfica e história oral para remontar a memória de Tia Marcelina, como maneira de fortalecer a identidade afro-brasileira e combater o racismo religioso.

No cambo dos atos simbólicos, o Movimento Negro e os Povos de terreiros Alagoanos reivindicaram, em audiência pública realizada em 11 de fevereiro de 2026, a mudança do nome da avenida Fernandes Lima para Avenida Tia Marcelina. Fernandes Lima foi um dos principais autores dos atos de violência foi líder da Liga dos Republicanos Combatentes, que nunca foi punido ou responsabilizado por suas ações. Ao longo de 114 anos, logradouros, prédios públicos e uma das principais avenidas de Maceió o homenageiam ao levar seu nome. Uma das principais líderes do movimento é a Ialorixá Mãe Mirian, que desde de 2023 mobiliza a reivindicação. A reivindicação foi entendida pela Defensoria Pública como um medida reparatória e de promoção do direito à memória e direito à verdade ,que implica no exercício da liberdade religiosa.

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