True Blue é o terceiro álbum de estúdio da cantora americana Madonna, lançado em 30 de junho de 1986 pelas gravadoras Sire e Warner Bros. Records. As gravações ocorreram entre dezembro de 1985 e abril de 1986 no Channel Recording Studios em Los Angeles, Califórnia, contando com a produção da própria, de Stephen Bray e Patrick Leonard, que serviu de diretor musical da The Virgin Tour. Para o seu terceiro disco de inéditas, Madonna assumiu maior controle criativo, decidindo apresentar-se como uma artista séria e atingir um público mais amplo e adulto — que não estava em contato com seus trabalhos anteriores, mais voltados a uma parcela mais jovem. Tal decisão refletiu-se em aspectos visuais e musicais do álbum, o primeiro a contar com seu total envolvimento na composição e produção.
Para o visual, Madonna adotou figurinos, cortes de cabelo e tons de maquiagens mais simples. Em aspectos musicais, como um distanciamento do bubblegum pop de seus primeiros discos, este é um álbum pop e dance-pop com múltiplas influências musicais e instrumentação como sintetizadores, guitarras e percussão programada, além do uso da voz em um tom mais grave, em contraste com o mais agudo de antes. A temática lírica trata de temas como amor, romance, casamento e devoção, e foi influenciada pela vida pessoal de Madonna e seu casamento com o ator Sean Penn. True Blue foi bem recebido pelos críticos musicais à época de seu lançamento, com elogios à sua produção e a maturidade artística de Madonna; resenhas em retrospecto o colocam como um arquétipo da música popular dos anos 1980. O trabalho venceu o Juno Award de International Album of the Year e dois Japan Gold Disc Awards, além de obter diversas indicações e vitórias por seus singles.
Um grande sucesso comercial, True Blue atingiu a liderança de paradas musicais de 28 regiões, um recorde à época, incluindo Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Na Europa, liderou a European Top 100 Albums por 31 semanas consecutivas e vendeu mais de 5 milhões de cópias em um ano. Obteve diversas certificações ao redor do mundo, como diamante no Canadá e na França e sete platinas no Reino Unido e Estados Unidos, além de passar da marca estimada de mais de 1 milhão no Brasil, França e Itália. Foi o disco mais vendido de 1986 globalmente e o de maior sucesso por uma artista feminina na década de 1980, e é o álbum de estúdio mais vendido da carreira de Madonna, com vendas estimadas em mais de 25 milhões de unidades.
Cinco singles foram lançados do álbum, todos sucessos mundiais, com três deles — "Live to Tell", "Papa Don't Preach" e "Open Your Heart" — liderando a norte-americana Billboard Hot 100. Os outros dois, a faixa-título e "La isla bonita", atingiram as cinco primeiras na referida tabela e lideraram a European Hot 100 Singles, com o último sendo o maior sucesso do ano de 1987 no continente europeu. True Blue foi divulgado também por meio da Who's That Girl Tour (1987), em conjunto com a trilha sonora de mesmo nome; a turnê foi a segunda de maior sucesso daquele ano e quebrou diversos recordes de público. True Blue é amplamente reconhecido como o álbum que solidificou Madonna como um ícone global e representante da música e cultura pop da década de 1980, ao lado de outros artistas masculinos como Michael Jackson e Prince. Também foi nele que a intérprete atingiu o público adulto e começou a ganhar maior significância cultural, por meio de seus vídeos e debates entre grupos conservadores.
Antecedentes e produção
Em 6 de março de 1986, durante uma coletiva de imprensa para o filme Shanghai Surprise realizada no Kensington Roof Gardens em Londres, Madonna confirmou que estava trabalhando em um novo álbum, que se chamaria Live to Tell, e que eventualmente seria renomeado True Blue. Ela trabalhou novamente com Stephen Bray, que havia participado da gravação de seu álbum anterior, Like a Virgin, e também colaborou pela primeira vez com Patrick Leonard. Madonna participou da composição de todas as músicas, embora seu envolvimento no desenvolvimento de algumas faixas como "Papa Don't Preach" e "Open Your Heart" tenha se limitado a adicionar algumas letras. Ela também foi creditada como coprodutora em cada faixa. O álbum foi gravado no início de 1986, durante seu primeiro ano de casamento com o ator americano Sean Penn. Ela dedicou o álbum a ele, dizendo: "Este é dedicado ao meu marido, o melhor cara do universo". Com este lançamento, a cantora tentou atrair um público mais maduro que antes, que até então era cético em relação à sua música, mudando sua imagem, adotando um estilo mais "tradicional" e incorporando elementos de música clássica em seu trabalho.
Referido como o álbum mais feminino de Madonna, True Blue apresenta suas visões de amor, trabalho, sonhos, bem como suas decepções. De acordo com a cantora, a obra tirou o nome de uma das expressões favoritas de Penn. O trabalho foi uma homenagem direta ao ator, inspirado por seu "amor sem vergonha" por ele, com muitas das músicas refletindo essa ideia.. Cada faixa do álbum se desenvolveu de forma independente. A primeira delas, "Papa Don't Preach", foi escrita por Brian Elliot , que a descreveu como "uma canção de amor, talvez enquadrada de forma um pouco diferente". A música é baseada em histórias que ele ouvia atrás da porta de seu estúdio, que apresentava uma grande janela frontal que as alunas da North Hollywood High School em Los Angeles usavam como espelho para pentear o cabelo e conversar. "Open Your Heart", a primeira música gravada para o projeto no início de 1986, foi escrita originalmente para Cyndi Lauper.
"White Heat" é dedicada ao ator James Cagney e leva o nome do filme de mesmo nome (1949); duas referências à trilha sonora original estão incluídas na letra. A próxima música, "Live to Tell", foi originalmente escrita por Patrick Leonard para a trilha sonora de Fire with Fire, mas depois que a Paramount Pictures a rejeitou, Leonard mostrou seu trabalho para Madonna, que decidiu usá-lo no filme mais recente de Penn, At Close Range. Para isso, ele gravou uma disco demo e quando James Foley, o diretor da película, a ouviu, pediu a Leonard que trabalhasse na trilha sonora, como a cantora sugeriu. True Blue foi o primeiro álbum em que Madonna incluiu temas hispânicos evidentes, como em "La isla bonita". Esta canção foi escrita para ser adicionada ao álbum Bad, de Michael Jackson, mas ele a rejeitou. Enquanto trabalhava com Leonard, a cantora concordou em gravar a faixa e reescreveu a letra, pela qual recebeu créditos de composição. Ela descreveu a canção como sua homenagem à "beleza e ao mistério do povo latino-americano". Originalmente pretendida como o single principal, "Love Makes the World Go Round" é a faixa de encerramento e foi apresentada pela primeira vez no show beneficente Live Aid em julho de 1985; É uma canção com letras que lembram a música anti-guerra dos anos 1960.
Capa 160px|thumb|left|O conceito da arte pop do artista Andy Warhol foi uma das inspirações para a capa de True Blue. A capa do disco foi fotografada por Herb Ritts, e é uma das imagens mais icônicas e reconhecíveis de Madonna. A imagem mostra a cantora do pescoço para cima. As cores predominantes são cinza, branco e vários tons de azul, para enfatizar o título. Madonna posou elegantemente enquanto usava maquiagem clara com batom vermelho, inclinando a cabeça para trás como um cisne. Jeri Heiden, que trabalhava no departamento de arte da Warner Bros., editou a fotografia e a tornou compatível com a de uma capa de álbum. Heiden teve que trabalhar com um total de 60 rolos de fotografias, cada um do tamanho de 35 milímetros. Ele ordenou cerca de 30 a 40 fotografias como um teste para Ritts, que fez recomendações com base nas fotografias. Diversas imagens da sessão de fotos foram consideradas para a capa do álbum, algumas dos quais se tornaram as dos singles "Papa Don't Preach" e "True Blue". A fotografia final foi selecionada por Madonna, Heiden e Jeff Ayeroff, diretor criativo da Warner Bros. na época do disco.
Heiden posteriormente começou a trabalhar em duas versões diferentes para a arte da capa. Como a fotografia original foi tirada em preto e branco, ele experimentou uma variedade de estilos e, para combinar com o título do álbum, decidiu pintar a imagem à mão para dar a ela um tom azul. As capas do disco nas edições de vinil e em CD apresentam apenas um fragmento desta fotografia do torso Madonna, o que também é visto na capa da edição em fita cassete, e também foi incluída como um pôster desdobrável nas prensagens iniciais do vinil. Um cartaz de Madonna, similar a foto da capa, foi incluído nas versões em vinil do álbum.
Nos primeiros lotes da versão do disco nos Estados Unidos e no Canadá, a capa de True Blue não apresentava nenhum logotipo. Heiden explicou, em uma entrevista feita para a revista Aperture, que eles acharam que seria "legal" usar um adesivo na edição americana, para que quando ele fosse removido, apenas a fotografia da cantora permanecesse. Nas nações europeias e sul-americanas, a Warner sentiu que o nome era necessário na capa, pois não queria comprometer a popularidade de Madonna nessas regiões. Na contracapa e dentro do encarte, os títulos das canções estão escritos na própria caligrafia de Heiden. Sobre a capa para as versões do disco em fita cassete e vinil, ele disse: "Acho que a imagem se tornou mais interessante quando foi encaixada em um formato quadrado e, em vez disso, sempre começávamos a sessão de fotos com a [que seria escolhida para] a capa de álbum. [Na imagem] era como se ela estivesse flutuando, suas roupas não estão visíveis. Ela assumiu a aparência de uma deusa em uma estátua de mármore. Na contracapa, você pode ver sua jaqueta de couro e a parede, e se torna mais típico, editorial, terreno".
De acordo com Lucy O'Brien, em seu livro Madonna: Like an Icon, a capa do projeto foi inspirada no conceito de arte pop, propagada por Andy Warhol. A autora sentiu que a imagem era uma mistura de inocência, idealismo, ao mesmo tempo incorporando o estilo das cores dos anos 1950 e a pintura à mão característica dos trabalhos silkscreen de Warhol, predominante nos anos 1960. Ela notou também que a capa anunciava a chegada de uma nova imagem para a cantora, explorando o apelo duradouro de seu ídolo Marilyn Monroe: "Com esta imagem, Madonna tornou explícita a conexão entre Warhol e ela mesma, o nexo vívido entre a arte pop e o comércio. O final da década de 1980 marcou uma nova era do artista pop como marca, e Madonna se tornou a primeira a explorar isso". Erica Wexler, da revista Spin, descreveu a foto como "uma cobra sob o sol quente. Madonna na capa de seu novo álbum estende seu comportamento lascivo". Em seu livro Madonna: An Intimate Biography, o escritor J. Randy Taraborrelli comentou que a imagem indicou como True Blue era um veículo de crescimento para a cantora. Ele também mencionou que a fotografia sem cores de sua cabeça inclinada para trás e olhos fechados era "discreta, especialmente quando comparada às poses provocativas com as quais ela havia sido associada no passado". O encarte do projeto não apresenta fotografias. Em vez disso, foi dedicado aos créditos do álbum e as letras das canções. Isso se deveu ao fato de que Madonna queria ser representada por seu trabalho em True Blue, e não por sua imagem.
Estrutura musical